Login:
Senha:
História
Estatuto
Executiva
PSDB no RS
Programa
Contatos
Prefeitos
Vice-prefeitos
Câmara Federal
Assembléia legislativa
Câmara de vereadores

Juventude
PSDB Mulher
ITV
Aprevi
Aver
Bancada na assembléia
Coord. regionais

LINKS

 Fazer consulta
Ler respostas

Legislação
Prestando contas 2005
Prestando contas 2004
Eleições 2004

Juventude
PSDB Mulher
I T V

DECLARAÇÃO PROGRAMÁTICA DO
PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA

(Documento preliminar para discussão interna)

Coordenador: Deputado Alberto Goldman

Brasília, 18 de maio de 2001

ÍNDICE

I. OS GRANDES DESAFIOS DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA *

1. O PAÍS ESTÁ MUDANDO PARA MELHOR *

2. A TOMADA DE CONSCIÊNCIA *

3. A REALIDADE DA GLOBALIZAÇÃO *

4. A CRISE DO ESTADO *

II. OS CAMINHOS DA REFORMA DO ESTADO E DO DESENVOLVIMENTO *

1. O EQUILÍBRIO FISCAL*

2. REDUZIR A DEPENDÊNCIA EXTERNA *

3. A DEFESA DA ECONOMIA BRASILEIRA *

4. POLÍTICA PARA A PEQUENA EMPRESA *

5. A INTEGRAÇÃO DO PAÍS *

6. A POLÍTICA EXTERNA *

III. OPÇÃO RADICAL PELA DEMOCRACIA POLÍTICA *

1. O SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL *

2. AS REFORMAS POLÍTICAS *

3. O PARLAMENTARISMO *

4. DEMOCRACIA PARTICIPATIVA *

5. COMBATE À CORRUPÇÃO *

6. MEIOS ELETRÔNICOS: A PARTICIPAÇÃO EFICIENTE *

IV. PLATAFORMA PARA UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA *

1. ECONOMIA URBANA *

2. GOVERNANÇA METROPOLITANA *

3. COMUNIDADE CÍVICA *

4. SEGURANÇA PÚBLICA *

5. TRABALHO, EMPREGO E RENDA *

6. PREVIDÊNCIA SOCIAL *

7. SAÚDE PÚBLICA *

8. EDUCAÇÃO *

9. CULTURA *

10. DESENVOLVIMENTO RURAL *

11. COMBATE ÀS DISCRIMINAÇÕES *

12. POLITICA DA JUVENTUDE*

V. A NOVA ETAPA DO PSD

 

I. OS GRANDES DESAFIOS DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA

A social-democracia tem história e tem futuro. Adentramos o século XXI como uma das forças políticas e sociais que moldaram o mundo, tendo exercido ontem e exercendo hoje uma influência sobre milhões de pessoas e ocupando postos de liderança política e governamental em grande parte do mundo. Nossa marca no "breve século XX" foi tão forte que a forma de Estado mais avançada que a humanidade produziu – tanto no tocante à vigência das liberdades formais como em matéria de conquistas sociais – é chamada de Estado social-democrático.

A social-democracia brasileira é relativamente nova. Nascemos sob o impulso das mudanças democratizantes que se seguiram à longa noite do autoritarismo. Como partido, temos doze anos, mas condensamos muito da experiência política do povo brasileiro. Participamos ativamente das lutas que culminaram nas duas conquistas fundamentais nas últimas décadas – a construção da democracia política mais ampla que a história brasileira conheceu e a construção da estabilidade monetária depois de meio século de inflação. Acreditamos que elas são o ponto de partida para um novo tipo de desenvolvimento, mais justo e igualitário, que colocará o Brasil como uma das comunidades líderes no século que se inicia. Politicamente, somos parte do que nossa sociedade produziu de melhor.

Com seu núcleo original oriundo do antigo PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro, então trincheira de luta contra o regime militar, o PSDB – Partido da Social-Democracia Brasileira, nasceu da confluência de diferentes vertentes do pensamento político contemporâneo. Do trabalhismo o PSDB recolheu o princípio da prioridade do trabalho sobre o capital. Da democracia cristã trouxe a ética da solidariedade e da participação comunitária, assimilada dos pensadores católicos personalistas e da ação política de líderes que comandaram a reconstrução democrática da Europa no pós-guerra. Do socialismo e da vertente democrática do comunismo herdou o patrimônio das lutas dos trabalhadores pela ampliação do direito do voto e pela construção de uma sociedade igualitária, bem como o combate aos totalitarismos de direita e de esquerda que infelicitaram o século XX. Os socialistas democráticos continuaram fiéis à tese da superação das formas mais perversas de capitalismo, considerando no entanto que esta deveria ser perseguida não só com a manutenção e ampliação das liberdades civis e políticas, como também preservando a economia de mercado, que deveria ser socialmente regulada. Dos liberais progressistas o PSDB aprendeu que não há bem maior do que a liberdade e que o principal legado da civilização ocidental está num conjunto de liberdades civis e políticas sem as quais não há avanço social possível.

Produto da confluência dessas diferentes vertentes do pensamento político contemporâneo, o Partido da Social-Democracia Brasileira continua unido por uma história comum e sob a bandeira da democracia como valor universal – da democracia como terreno de luta pela superação das desigualdades e pela construção de uma sociedade igualitária, pluralista, solidária, que deverá ser o legado – de significação mundial – do povo brasileiro ao novo século.

É a opção radical pela democracia que nos fornece norte e destino. Em função dela recusamos tanto o populismo como o autoritarismo, tanto o fundamentalismo neoliberal como o nacional-estatismo atrasado. Como diz o Manifesto de Fundação:

"Diferentemente dos populistas de ontem e de hoje, entendemos que a preocupação com uma distribuição justa da renda e da riqueza exige definição clara das prioridades das políticas públicas e estímulo à eficiência na produção, sem o que não há medidas distributivas que se sustentem. Diferentemente dos autoritários, afirmamos que as reformas desejadas não virão como doação providencial de um Estado forte ou de uma chefia autocrática, mas sim como resultado do livre exercício das pressões e da negociação dos conflitos no âmbito da sociedade civil.

"Recolhendo a herança democrática do liberalismo, não partilhamos com os liberais conservadores a crença cega no automatismo das forças do mercado. Nem pretendemos, como eles, tolher a ação reguladora do Estado onde ela for necessária para estimular a produção e contribuir para o bem-estar, e desde que a ação estatal seja controlada pela sociedade e não guiada pelo interesse corporativo da burocracia ou pela vocação cartorial de grupos privados. Por isso, na concepção de democracia do PSDB, a racionalidade da relação entre os fins desejados pela sociedade e os meios disponíveis requer transparência da informação e participação ampla dos cidadãos nas decisões sobre as políticas públicas".

Mais de dez anos depois, não há o que tirar nem pôr nessa formulação. Ela não só continua substancialmente válida como fornece uma sólida diretriz, capaz de orientar a ação política diante das profundas e complexas transformações mundiais e nacionais. Se é possível dizer que o programa de fundação do partido envelheceu em alguns aspectos, não se pode dizer a mesma coisa dos princípios que o norteiam, dos objetivos gerais que o partido se propôs a atingir.

1. O PAÍS ESTÁ MUDANDO PARA MELHOR

A situação política do país não é a mesma do momento da fundação do PSDB. De lá para cá, o Brasil evoluiu. Está mudando, e mudando para melhor. Quando o partido foi criado, participávamos com entusiasmo da elaboração da nova Constituição; consideramos que ela de fato expressou muitas conquistas progressistas. Assinalávamos, porém, a decepção provocada pela Nova República, decepção que abriu caminho para a vitória de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial de 1989 e para a montagem de um governo que se apresentava como um reformador radical, mas que não tinha nenhum compromisso com as instituições democráticas. Sem um programa confiável de reformas e, além do mais, tentando fazer reformas a golpes de borduna, o governo Collor agravou dramaticamente o descontrole da economia e acabou pondo a sociedade diante da alternativa de mudar o governante ou perecer. O fato de a crise ter sido resolvida sem ruptura da ordem constitucional diz muito a respeito da maturidade da jovem democracia brasileira. A mobilização pelo impeachment galvanizou a população, provocou a união da maioria das forças políticas e solidificou as instituições, gerando condições para uma mudança qualitativa. Ao assumir a Presidência, Itamar Franco buscou e conseguiu o apoio de forças políticas democráticas e progressistas, levando para o governo inclusive líderes do PSDB, como Fernando Henrique Cardoso.

Só então tornou-se possível a solução do mais grave problema que, superada a ditadura, afligia o país – o caos na economia, a ameaça de hiperinflação. Elaborado e posto em prática com ousadia e bom senso, o Plano Real acabou tendo um êxito vigoroso e profundas e benéficas conseqüências políticas. Em 1994 abriu caminho para a assunção do candidato do PSDB à Presidência da República, alicerçado num amplo arco de alianças, nucleado pela relação com o Partido da Frente Liberal. Com o governo de Fernando Henrique Cardoso começou uma nova etapa na vida brasileira.

O governo de Fernando Henrique Cardoso não apenas formulou o programa de reformas da sociedade e do Estado mais ambicioso que se tem notícia desde a Revolução de 30, como tem conseguido levar adiante esse programa com amplo apoio da sociedade, dentro das regras democráticas. Alterações modernizadoras foram feitas na Constituição e na legislação ordinária. A política de estabilização monetária foi exitosa e o processo de reconstrução das relações entre Estado, capital privado nacional e empresas multinacionais, ganhou impulso. Com o apoio da sociedade e com ampla maioria no Congresso Nacional, as áreas de educação, saúde, telecomunicações e reforma agrária, entre outras, foram objeto de políticas democratizantes, com nítidas repercussões sociais.

2. A TOMADA DE CONSCIÊNCIA

Ao insistir em que os alicerces do novo Brasil foram lançados nesses anos do governo Fernando Henrique Cardoso, não hesitamos também em reconhecer que estamos longe do país que almejamos. Ao longo da nossa história, problemas não resolvidos se acumularam; e novos apareceram, gerados em parte pela mutante realidade internacional. Continuamos a ser uma nação marcada por injustiças e desigualdades sociais, temos um país com enormes disparidades regionais. Nossas instituições não atendem aos marginalizados e aos excluídos. Possuímos um Estado ainda caracterizado pelo arcaísmo e pela ineficiência. Essas e outras mazelas nos atormentam e nos motivam para a luta como cidadãos e dirigentes políticos, homens de partido hoje com responsabilidades governamentais.

Dois são os principais desafios que o Brasil está enfrentando, ambos profundamente imbricados: a realidade da globalização e a necessidade de completar a reforma do decadente Estado nacional-desenvolvimentista

A grande diferença entre o momento atual e o da fundação do PSDB, é que nem o país nem o partido tínhamos então consciência clara da extensão e profundidade das transformações sociais, econômicas, tecnológicas, culturais e políticas em curso no mundo. Para os filhos de uma sociedade e de um mundo político e ideológico relativamente fechado como era o nosso, era difícil perceber ou antecipar as conseqüências que adviriam do novo impulso universalizador das relações sociais, econômicas e financeiras desencadeado em escala planetária.

Era visível, por outro lado, o esgotamento do Estado nacional-desenvolvimentista. Ele que durante cerca de 50 anos havia prestado bons serviços à industrialização, agora se encontrava exaurido, endividado e corrompido – isso justamente no momento em que mais precisávamos de um Estado ágil e eficiente. Mas, se essa crise era perceptível, era nebuloso o caminho pelo qual poderia ser superada.

A Constituição de 1988 foi uma expressão desse momento de transição, em que a falta de compreensão clara dos novos problemas levava os atores políticos a se deixarem guiar por idéias e concepções já então anacrônicas. A Constituinte consagrou de maneira inédita o conjunto de liberdades políticas e direitos civis pelo qual o país havia se batido ao longo de duas décadas. Ao mesmo tempo, cristalizou uma série de regras, procedimentos e instituições que engessavam a economia, sobrecarregavam financeiramente o Estado e não mais correspondiam às novas necessidades que a sociedade precisava enfrentar. As formas de articulação entre Estado e mercado que haviam sido criadas e consolidadas entre os anos 30 e 80, foram juridicamente institucionalizadas no momento mesmo em que a transnacionalização da economia, o colapso do socialismo realmente existente e o esgotamento interno do projeto nacional-desenvolvimentista decretavam a sua morte. As contradições tornaram-se, assim, mais agudas.

A social-democracia brasileira foi um dos agrupamentos políticos que mais cedo compreenderam a nova situação. Em vez de fechar os olhos, enterrar a cabeça na areia e esperar que os ventos da história levassem de roldão o aparentemente triunfante "neoliberalismo", tratamos de tirar as conseqüências necessárias desse aprendizado. Fomos, por isso, capazes de construir novas alianças, qualificarmo-nos como pólo aglutinador de todas as forças progressistas, liberais e democráticas que, com maior ou menor grau de consciência, optaram por reformas estruturais para tornar viável um novo país. Fato raro na política brasileira, uma formação política que não era majoritária nem na sociedade, nem no Congresso, foi, entretanto, capaz de aglutinar uma maioria heterogênea, estruturar não apenas uma coligação de partidos, mas uma aliança social, criando um novo bloco histórico com condições de perdurar.

3. A REALIDADE DA GLOBALIZAÇÃO

Um dos desafios que a sociedade brasileira e o Estado nacional enfrentam hoje está no processo de globalização. Este não é um fenômeno único, mas múltiplo, envolvendo aspectos tecnológicos, financeiros, comunicacionais, ideológicos e culturais. A globalização é habitualmente tratada de maneira ideológica, de modo a aplastar toda diferença histórica entre os países, como se as instituições políticas e os costumes sociais fossem descartáveis e como se todos estivéssemos condenados a ser meras variantes da mesma matriz. Não devemos cometer o equívoco de reduzir o processo real a esse discurso. Gostemos ou não, trata-se – a globalização – de um fato social inequívoco, uma realidade histórica prenhe de riscos, mas também de oportunidades. Cabe, portanto, ser encarada com realismo e determinação, não só porque dela não podemos fugir como porque podemos emergir engrandecidos, ocupar um papel de primeiro plano no cenário internacional ou fracassarmos como nação.

Do ponto de vista econômico, o fenômeno da globalização atual consiste na extraordinária expansão dos fluxos financeiros internacionais, ocorrida nas duas últimas décadas, e no seu evidente impacto sobre as políticas monetárias e cambiais das economias nacionais. Nesse sentido, ela é um produto do processo de inovação tecnológica em curso, que barateou enormemente os custos dos transportes e das comunicações. Permanecendo nacional a mão-de-obra, a inédita mobilidade de capitais assim gerada se fez acompanhar pela internacionalização da produção e dos mercados, pelo incremento do comércio mundial. Esse aumento não se deu apenas entre empresas, mas sobretudo entre unidades da mesma empresa, localizadas em pontos diferentes do planeta. Por outro lado, como os países são selecionados por essas corporações multinacionais para receberem investimentos, com base nas vantagens comparativas que oferecem, acabaram se transformando em agressivos competidores por tais capitais externos.

Não há como não perceber que tudo isso tornou obsoleto o que parecia viável no "século curto" que medeia entre a Primeira Guerra Mundial e a queda do Muro de Berlim, ou seja, a construção de economias nacionais auto-suficientes, capazes de substituir quase todas importações e de servir de base para a realização da soberania clássica. Na mesma medida, a globalização arquivou ou tende a arquivar a maioria das velhas vantagens comparativas dos países em desenvolvimento, tais como mão-de-obra barata e matérias-primas. A variável decisiva passou a ser o conhecimento, a qualidade da mão-de-obra, a capacidade de fazer pesquisa científica e tecnológica e de incorporá-la ao processo de produção. Isso torna irremediavelmente pesado o custo derivado da desigualdade social, da baixa escolaridade e do analfabetismo, da ausência de investimentos em pesquisa básica e aplicada, da débil conexão do empresariado com a universidade e da própria exigüidade da comunidade científica.

Ao tempo em que restringia drasticamente o espaço das alternativas e das escolhas nacionais, a globalização tornou o papel do Estado ainda mais decisivo, ao contrário da lenda. Embora não tenham perdido soberania sobre os seus territórios, os estados nacionais viram cada vez mais diminuídas suas possibilidades de controle da moeda e foram obrigados a se dobrar a regras econômicas e padrões de conduta comerciais definidos internacionalmente. Tudo isso alterou dramaticamente, mas não eliminou, o âmbito da ação governamental. Esta voltou-se em grande parte para ajudar as economias de seus países a desenvolver e sustentar condições estruturais de competitividade em escala global.

A globalização, além disso, não é um fenômeno estritamente financeiro. Ela é, sobretudo, informacional e cultural. Desse ponto de vista, ela tanto amplia o espaço para a manifestação das diversidades nacionais e culturais como favorece o estreitamento dos laços entre os povos e nações. Especialmente,ela vem tornando possível, pela primeira vez na história, a generalização da democracia em todo mundo, a criação de uma opinião pública internacional vigilante quanto aos abusos contra os direitos humanos.

Nenhuma dessas transformações, portanto, deve ser vista em termos maniqueístas. A enumeração das conseqüências da globalização fornece um roteiro para o debate e pode ser transformada num programa de ação. Mas ele estaria incompleto se não enfocássemos a questão do Estado do ponto de vista nacional. Pois boa parte das dificuldades em que estamos mergulhados resulta do fato de que o Estado brasileiro entrou internamente em crise justamente no momento em que era desafiado externamente pelas transformações na economia e pelas mudanças no equilíbrio de forças internacionais.

4. A CRISE DO ESTADO

Nas relações internas, o principal problema político é e continua sendo a crise do Estado. E a principal batalha da social-democracia e de todas as forças autenticamente progressistas é e deve ser pelo aprofundamento da reforma do Estado, pela reconstrução em bases democráticas de sua relação com o mercado e com a sociedade civil. Se a realidade da crise é perceptível para todos, não há consenso quanto ao diagnóstico de suas causas, nem quanto aos remédios que poderão controlá-la e superá-la.

Como social-democratas, não concordamos com as propostas neoliberais que propugnam um corte radical nas funções do Estado, sua redução a um Estado mínimo que não interfira na economia e não tenha qualquer responsabilidade, a não ser demagógica, para com os mais pobres. Recusamos também o entreguismo dessa corrente, que passa facilmente por cima da existência de interesses nacionais múltiplos e contraditórios e se comporta como se fosse irrelevante para o país ter controle de sua moeda, ou como se fosse possível superar as tremendas desigualdades existentes sem um Estado afirmativo e eficiente. Além de utópico, um Estado que se curvasse à soberania dita "incontrastável" do mercado, que se resumisse às funções clássicas teorizadas pelos liberais dos séculos XVII e XVIII, seria criminoso, pois significaria abrir mão de toda possibilidade de induzir o desenvolvimento e de promover uma sociedade mais igualitária e mais solidária.

Por outro lado, tampouco concordamos com correntes da velha esquerda, que resistem a ajustar contas com os fatos e continuam acreditando que o Estado pode e deve permanecer controlando diretamente extensas áreas da economia e interferindo numa série de campos onde a iniciativa privada pode fazer mais e melhor. Sobretudo, recusamos o modo pelo qual elas aceitam que os indivíduos e as liberdades individuais e políticas sejam sacrificados em nome de um suposto "bem comum", cuja face real é a ditadura e a igualdade na miséria. Essa velha esquerda fecha os olhos à falência financeira dos poderes públicos, às dificuldades da administração estatal em gerir empreendimentos econômicos, à facilidade com que um Estado maximizado sucumbe ao assalto da corrupção e do corporativismo, e à inexistência de poupança e recursos públicos suficientes para atender às necessidades de investimento da economia.

É curioso ver como no mundo da política real aquela direita e essa esquerda, aparentemente antagônicas, confluem na reação à mudança e no abraço ao velho Estado com suas práticas corporativas e clientelistas. De maneira sub-reptícia uma e explícita outra, ambas acabam por defender o status quo e freqüentemente se aliam na proposição de políticas sociais inviáveis e demagógicas.

É um grave equívoco supor que seja possível optar pelo Estado contra o Mercado e vice-versa. Precisamos dos dois. Diferentemente tanto do neoliberalismo como do velho estatismo, a social-democracia desdramatiza, por assim dizer, o necessário vínculo entre o Estado e o Mercado, ou entre a empresa estatal e a empresa privada. Na verdade, ela desloca o eixo da opção do plano ideológico abstrato para o plano histórico, objetivo e pragmático. Recusa qualquer posição doutrinária e considera necessário analisar caso a caso qual a combinação entre empresa privada de capital nacional, empresa privada de capital estrangeiro e empresa estatal que mais se presta, em cada circunstância histórica concreta, aos objetivos buscados: o dinamismo da economia, a promoção do desenvolvimento, a superação das desigualdades, a promoção da eqüidade. Desse ponto de vista, queremos sim um Estado que intervenha melhor, um Estado que longe de sufocar a iniciativa da sociedade seja o seu aliado necessário na luta por mais igualdade, liberdade e autodeterminação.

II. OS CAMINHOS DA REFORMA DO ESTADO
E DO DESENVOLVIMENTO

Sabemos que, para nos transformar numa nação próspera, é imprescindível retomar e imprimir um ritmo mais rápido ao crescimento econômico, que não pode mais, como no passado, utilizar os serviços – socialmente perversos – da inflação. Mas não basta crescer. O desenvolvimento econômico é sempre medido pela capacidade de um país de gerar emprego, ocupação e renda, e de elevar a qualidade de vida da população. Mais do que isso, temos que promover um tipo de desenvolvimento que resguarde os interesses das futuras gerações, controle e reduza drasticamente a dilapidação dos recursos da Natureza.

Em que condições e com qual política é possível retomar em grande escala um desenvolvimento econômico e social capaz de superar as graves mazelas e desigualdades ainda existentes na sociedade brasileira? Em primeiro lugar, é preciso dizer, contra a arraigada visão pessimista sobre o desempenho do país, que não começamos do zero. Embora dependente, a trajetória histórica do Brasil no século XX difere de outros países que partiram das mesmas condições, pelo fato de termos sido capazes de reagir com grande dinamismo às ondas de inovação tecnológicas e às transformações nas relações sociais de produção, ciclicamente desencadeadas nos países centrais. Por isso mesmo, em vez de joguetes passivos e subalternos dessas transformações, fomos capazes de crescer tanto em épocas de expansão como em épocas de depressão do mercado mundial.

A situação atual é distinta, justamente por conta dos dois fenômenos básicos já apontados: o esgotamento do estado nacional-desenvolvimentista e a profunda mudança nas relações da economia brasileira com o resto do mundo, ocorrida em função da revolução tecnológica e informacional em curso. Foi a profundidade da crise vivida nos anos 80 e 90 que nos demonstrou a impossibilidade de voltar a crescer utilizando modelos e políticas econômicas que foram boas no passado, cumpriram o seu papel, mas estão completamente defasadas diante das novas realidades.

Nas últimas décadas assistimos à progressiva decadência da maioria das empresas estatais, seja por vícios na sua própria gestão, seja por distorções da política econômica. Tal situação tornou-se insustentável quando ficou evidente a incapacidade de o Estado brasileiro fornecer novos recursos para a expansão das estatais, justamente no momento em que essas áreas de serviço público – energia, transportes, telecomunicações, água e saneamento básico –precisavam de novos investimentos.

A mudança no caráter de concessão dos serviços públicos e a privatização de empresas estatais, além de exigências do desenvolvimento das forças produtivas, acabaram por se tornar passos decisivos para a ruptura com uma ética e com uma cultura política profundamente arraigadas na vida brasileira. Secularmente se entendia entre nós que, face a qualquer problema social e econômico, a solução seria sempre levar o Estado a se encarregar dessas atividades. Foi dessa maneira que foram enfrentadas questões como a exploração de minérios, a fabricação de aço, a construção de ferrovias e rodovias, o setor energético e o de meios de comunicação, a montagem de bancos e assim por diante.

O esgotamento desse modelo impôs a necessidade da privatização. Essa solução gera, por sua vez, novos problemas, demanda um duro aprendizado da população e do Poder Público, e exige a criação de um novo tipo de agências estatais, desta vez regulatórias, capazes de elaborar normas e fiscalizar a atuação das empresas de serviço público, especialmente daquelas que foram privatizadas. A nova situação, além disso, torna o consumidor do bem público mais exigente, o cidadão e as organizações de defesa do consumidor e dos direitos civis em geral mais vigilantes.

A visão neoliberal do "estado mínimo" toma a privatização como um bem em si mesma. A visão do PSDB é outra: trata-se de escolher em cada situação concreta a melhor alternativa para a expansão da infra-estrutura do país, levando em conta as necessidades da economia e do cidadão-consumidor. Nessa perspectiva, empresas estatais bem geridas, dentro de um ambiente competitivo, podem ser uma reserva operacional importante para o Poder Público e um reforço para a própria capacidade de regulação da atividade econômica privada.

No mesmo sentido, optou-se por promover um choque de competitividade na economia brasileira, criando condições para a incorporação de novas tecnologias que se refletem na qualidade e no preço do produto, beneficiando o consumidor e nos habilitando a disputar com êxito mercados de outras partes do mundo. A abertura controlada da economia colocou-se assim na ordem natural das coisas: se o desenvolvimento econômico sustentável é possível, e ele o é, deverá ser balizado pela integração competitiva no mercado mundial e pela elevação exponencial da produtividade da economia e do trabalho dos brasileiros. É por ter levado realisticamente em conta esses dados que a política reformista seguida desde o Plano Real vem se demonstrando substancialmente correta e confirmada pelos fatos.

1. O EQUILÍBRIO FISCAL

Parte essencial da batalha pela mudança na forma de atuação do Estado é a busca do equilíbrio fiscal. Uma das preocupações centrais do governo Fernando Henrique Cardoso, a luta pelo equilíbrio fiscal vem sendo travada desde o lançamento do Plano Real. É preciso reconhecer que muito se avançou nessa questão, mas seus resultados ainda estão distantes das metas que precisamos alcançar, pois o equilíbrio fiscal diz respeito não apenas às contas da União, mas também aos estados e municípios importantes. E como atinge muitos interesses e privilégios corporativos, é tremenda a resistência dos que são afetados por decisões governamentais que objetivem a melhor aplicação dos recursos públicos.

Boa parte da dificuldade de equilibrar as contas públicas decorre de dois traços perniciosos da cultura política brasileira. Um é a velha tradição patrimonialista, segundo a qual os que se aproximam do Poder Público devem gozar de favores especiais e benesses particulares. Daí a resistência férrea de uma elite de privilegiados que, através dos tempos, vem garantindo a profunda desigualdade característica da sociedade brasileira. Outro é a tradição populista, entendendo por esta toda tentativa de responder às pressões – justas ou não – de certos setores populares às custas dos cofres públicos, sem atentar para o fato de que déficits fiscais permanentes provocam o recurso à inflação e ao endividamento do Estado, facilitam a depressão econômica e a conseqüente corrosão do poder aquisitivo da própria população que se diz defender.

Como corolário dessas culturas, dominou durante largo tempo na opinião pública e em setores da administração, a imagem segundo a qual o bom governante é o "fazedor de obras", pouco importa se necessárias, prioritárias, razoáveis ou não; é o político "de resultados", que para tanto não se preocupa com a lisura nos gastos, não hesita em endividar o Estado e não tem escrúpulos em assumir compromissos que serão pagos pelas futuras gestões.

Rompendo radicalmente com essas posturas, o governo Fernando Henrique Cardoso e o PSDB assumiram com destemor a causa da boa gestão dos órgãos públicos, tratando com austeridade os recursos fornecidos pelo contribuinte. Disso se tornaram exemplos a conduta de governantes do PSDB, como a de Mário Covas, que enfrentou corajosamente a deplorável da situação do governo do Estado de São Paulo, legada pelos que o antecederam; e a de Tasso Jereissatti, cujo êxito extraordinário na promoção do desenvolvimento do Ceará tem sido facilitado pela manutenção do equilíbrio das contas do Estado.

Se o patrimonialismo e o populismo ainda estão enraizados na política brasileira, é preciso por outro lado acrescentar que o compromisso com a austeridade fiscal é uma diretriz que tem hoje largo apoio na opinião pública, pois a experiência sofrida com o descalabro tem levado o eleitorado a exigir cada vez mais dos governantes uma conduta responsável para com a coisa pública. O reconhecimento da necessidade absoluta de introdução desse novo princípio ficou expresso na aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei de Responsabilidade Fiscal, proposta pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Essa lei abre caminho para o combate mais eficaz a velhas mazelas, que contribuem para a gestão incorreta dos recursos fornecidos pelo contribuinte.

2. REDUZIR A DEPENDÊNCIA EXTERNA

A estratégia de reformas estruturais posta em prática pelo governo Fernando Henrique Cardoso vem, portanto, desencadeando uma transformação profunda no país – uma revolução democratizante, cujos efeitos nem sempre são percebidos mas que, de fato, estão se tornando irreversíveis. Se essa política reformista foi, no geral, acertada, é preciso reconhecer que a situação externa e certos desequilíbrios internos favorecidos inadvertidamente por certas decisões de política econômica, condicionaram e complicaram a sua execução.

A economia mundial tem sido marcada por crises sucessivas em distintas áreas do mundo, crises que se alastram e atingem notadamente países emergentes como o nosso. O Brasil acabou sendo atingido por uma onda de instabilidade que engolfou a Ásia e a Rússia, penalizou a América Latina e abalou a Europa e os próprios Estados Unidos. Para defender a economia e manter estável a nossa moeda, uma série de decisões tiveram de ser tomadas. O longo período em que o real se manteve sobrevalorizado, se serviu para fortalecer e manter o poder aquisitivo do brasileiro, por outro lado obrigou o país a pagar altas taxas de juros para evitar crises externas, situação cujas seqüelas persistem até hoje. A desvalorização do real tornou-se indispensável porque a política cambial anteriormente praticada estava agravando o desequilíbrio das contas externas, impondo uma aflitiva atração de capitais estrangeiros por meio da elevação exagerada da taxa de juros. Esta, por sua vez, conduziu ao amortecimento generalizado das atividades econômicas, à maior concentração de rendas e à elevação descontrolada dos encargos com as dívidas externa e interna. Estabeleceu-se, dessa maneira, um círculo vicioso, que impedia a retomada do desenvolvimento e o atendimento de problemas prementes da população.

A opção presidencial por um regime de flutuação cambial e a capacidade de resistência demonstrada pela economia brasileira permitiram vencer a tempestade. Por si só, este é um indicativo altamente revelador de como a economia e a sociedade brasileiras se modernizaram e se revitalizaram ao longo da implementação das reformas. A experiência, no entanto, deixou como saldo uma lição: a necessidade de reduzir o grau de dependência e de exposição da nossa economia a fatores negativos do mercado financeiro internacional. Permanece a obrigação de lutar pelo equilíbrio de nossas transações externas, uma vez que não podemos nos apoiar em recursos financeiros voláteis e especulativos. Em outras palavras, nossa moeda não pode ficar à mercê dos azares dos mercados financeiros mundiais ou do custoso socorro de agências internacionais, somente concedido se aceitarmos obrigações nem sempre vantajosas.

Nossa política econômica e financeira deve ter como meta, portanto, diminuir essa dependência. Mas esse objetivo não será alcançado a curto prazo, pela mera proclamação de nossa vontade e com arroubos demagógicos. Ele demanda um comportamento realista e pragmático, e um conjunto de ações no sentido de:

  • impulsionar o crescimento da economia e elevar o nível de competitividade em todas as atividades produtivas;
  • estimular as exportações, tornando mais ágil a ação dos agências governamentais e apoiando os grupos empresariais interessados em ampliar nossa presença em outros mercados;
  • aprofundar a inserção do país no mercado mundial, ao mesmo tempo defendendo firmemente os interesses nacionais no relacionamento com outras nações e nas negociações dentro das organizações internacionais (ONU, FMI, OMC, BIRD, Banco Mundial, etc.);
  • reavaliar criteriosamente o conjunto de transações financeiras com o mercado internacional, de modo a impedir a continuação de ações ilícitas e abusivas que drenam uma considerável parcela da riqueza nacional;
  • reforçar a capacitação nacional no campo da pesquisa e desenvolvimento e buscar alianças que fortaleçam a posição do Brasil nas negociações sobre propriedade intelectual.

3. A DEFESA DA ECONOMIA BRASILEIRA

A defesa da economia brasileira não pode, portanto, ser equacionada nos mesmos termos do passado. Décadas atrás houve consenso sobre a necessidade de impor restrições aos capitais estrangeiros, sobre a fixação de barreiras tarifárias e não tarifárias que tornavam quase proibitivas uma série de importações, sobre o estabelecimento de monopólios estatais e de subsídios a grupos nacionais – sobre a necessidade, enfim, da intervenção direta do Estado em atividades produtivas. Esse modelo econômico se esgotou e nos últimos anos tornou-se inevitável a fixação de novas diretrizes, já que aquela velha orientação passou a ser um obstáculo à modernização da economia.

O esgotamento desse modelo intervencionista não significa, de maneira alguma, que ele deve ser substituído por um Estado absenteísta, pela tese de que a sociedade e o Estado devam se curvar docilmente diante da "mão invisível do mercado".

Desejamos que capitais estrangeiros participem do esforço nacional para eliminar gargalos que bloqueiam o desenvolvimento, mas de modo a robustecer a economia brasileira. Nesse sentido, o critério de nosso relacionamento com os capitais externos deverá ser sempre e em cada caso o interesse nacional, definido sem concessões ao velho estatismo nacionalista, mas também sem nenhum açodamento entreguista.

Um dos elementos mais significativos dessa postura de defesa dos nossos interesses diz respeito ao fortalecimento das atividades científicas e tecnológicas. O Brasil tem avançado nessa área nos últimos anos. Ampliou os mecanismos de financiamento à pesquisa, tem consolidado quantitativa e qualitativamente sua produção científica, tem acumulado êxitos na criação de redes institucionais como a que colocou a nossa genômica entre as principais do planeta. No ainda chamado Terceiro Mundo, apenas a China, a Índia e o Brasil dispõem de quadros intelectuais e de estruturas de pesquisas capazes de produzir, e não apenas de consumir, conhecimento. Apesar disso, temos ainda um longo caminho a percorrer, pois não há, nem na sociedade, nem no mundo político brasileiro, uma consciência consolidada do caráter estratégico dessas atividades, fundamentais para o futuro do país num mundo como o nosso. Não dispomos também de mecanismos suficientes e eficazes para a plena utilização do progresso técnico para melhorar as condições de vida dos brasileiros.

O principal instrumento de defesa da nossa economia está, no entanto, na construção de uma sociedade mais justa. E esta é indissociável da luta pela retomada do desenvolvimento, para não apenas crescer, mas crescer de outra maneira.

4. POLÍTICA PARA A PEQUENA EMPRESA

Os pequenos negócios, especialmente ao longo da última década, transformaram-se na grande base empregadora, geradora e distribuidora de riquezas do país.

Quando falamos em pequenos negócios no Brasil, incluímos não apenas as 4,5 milhões de micro e pequenas empresas que compõe 99% do total de empresas formais do país, mas também os cerca de 13,5 milhões de pequenos negócios informais, ambos grandes responsáveis pela geração de oportunidades de trabalho e renda para a maioria dos brasileiros.

Considerando apenas as empresas do setor formal, as micro e pequenas empresas são responsáveis por 53,6% do pessoal ocupado, 44,6% da massa salarial e 28,2% da receita/valor bruto da produção industrial. No meio rural também é grande a importância da pequena produção ou da chamada agricultura familiar.

A importância desse segmento para a economia do país não se resume unicamente a sua relevância estatística na geração de empregos e riquezas. É certo que por si só já lhe concederia um lugar de destaque em qualquer estratégia de desenvolvimento.

A preocupação central com o combate às desigualdades sociais e o desemprego, corroboram para destacar as micro e pequenas empresas como centrais a qualquer estratégia de geração de oportunidades de renda e postos de trabalho, dois dos principais desafios enfrentados e ainda no porvir.

Por unir o artesanal ao high tech, a produção primária aos produtos do entretenimento, laser, cultura, pequenas agroindústrias, em escalas variadas de produção, as pequenas empresas são maioria em todas as regiões do país. E isso é fundamental para a construção de um tecido econômico e social mais justo nas pequenas e médias cidades brasileiras. Os últimos censos demográficos robustecem a tese de que é fortalecendo essa rede de pequenas e médias cidades que evitaremos a migração em massa para os já congestionados grandes centros urbanos.

Nesse sentido, não podemos esquecer a importância das micro e pequenas empresas nas estratégias de integração e de superação das desigualdades regionais. Quanto mais prósperas elas forem onde estão e mais capazes de integrar os que chegam ao mercado de trabalho a cada ano, maior dinamismo viverão essas regiões do país.

Por sua importância estratégica para o desenvolvimento econômico do país, as micro e pequenas vem recebendo apoio das políticas públicas, onde muitos dos avanços foram conquista da social-democracia brasileira e do governo Fernando Henrique. A regulamentação do Estatuto da Micro e Pequena Empresa, por exemplo, a instalação de um Fórum específico para discussão de seus problemas envolvendo órgãos do setor público, instituições de fomento e as representações desse segmento produtivo, a instalação do FÁCIL em diversos estados, desburocratizando, dando celeridade e reduzindo custos dos processos de abertura e regularização de empresas, a simplificação tributária que decorre do SIMPLES federal, secundado por instrumentos semelhantes nos estados, são avanços consideráveis no tratamento diferenciado a micro e pequena empresa, como prevê a Constituição Federal.

Esses avanços permitiram a regularização de milhões de empregos, a criação de milhares de micro e pequenas empresas que trouxeram para o processo produtivo desempregados e sem renda.

Em que pese esses avanços, ainda são grandes os desafios e variadas as possibilidades de ação voltadas para esse segmento.

O fortalecimento das micro e pequenas empresas é um pilar do fortalecimento da economia nacional numa perspectiva social-democrática, e como tal será uma prioridade no programa econômico do PSDB.

5. A INTEGRAÇÃO DO PAÍS

O objetivo fundamental do PSDB é o aprofundamento da democracia, a superação dos graves problemas sociais que ainda nos afligem: a eliminação da miséria, a diminuição da pobreza, a redução das profundas desigualdades regionais e sociais existentes entre os brasileiros. A realização dessa meta e o fortalecimento nacional e internacional do Brasil não serão possíveis sem que a imensa maioria da população esteja unida e disposta a criar uma nação próspera. Com essa visão, o PSDB postula a elaboração de uma estratégia para a integração social, física e regional do país.

A história brasileira apresenta períodos de maior ou menor centralização da estrutura de governo, de maior ou menor autonomia das unidades da federação em termos de administração pública. A Constituição Federal de 1988 inaugurou a fase de maior descentralização que o país conheceu, dando uma grande margem de atuação para os governos estaduais elaborarem suas políticas econômicas. Tal orientação democratizante – em oposição ao centralismo do período militar – trouxe não obstante desdobramentos negativos não previstos. O maior deles é a forte e por vezes predatória concorrência entre os estados pela atração de investimentos privados.

A nova orientação descentralizante teve de operar numa estrutura territorial marcada por profundas desigualdades quanto à distribuição de riqueza e de equipamentos produtivos. Some-se a isso uma cultura político-administrativa consolidada num ambiente autoritário, com pouca tradição no uso de mecanismos participativos e de controle social dos atos governamentais. Um quadro de grandes demandas sociais acumuladas e alta concentração geográfica dos grandes investimentos completa o cenário do que vem sendo chamado de guerra fiscal entre as unidades da federação.

Isenções tributárias e favorecimentos creditícios irracionais tornaram essa competição para atrair indústrias uma atividade lesiva a toda a estrutura produtiva nacional. Dadas as vantagens leoninas concedidas aos agentes privados, a guerra fiscal beneficiou algumas áreas, mas no substancial colocou em risco setores já estabelecidos (com repercussões significativas na taxa de emprego) e levou a uma situação na qual o poder público, em todos os níveis, pouco se beneficia com os novos investimentos. De um ponto de vista nacional, tal quadro de entropia demanda que se rediscuta o pacto federativo no país, tornando esse tema um dos mais candentes na agenda da reforma do Estado.

As iniciativas voltadas para a expansão da infra-estrutura interligando as diversas regiões desempenharam um papel crucial na formação de nosso país. Apesar disso, somos ainda uma nação em que parcela gigantesca do território está pouco conectada à vida nacional, ou essa conexão se dá de forma esgarçada e precária. Além disso, o lado excludente do processo de globalização em curso torna mais inadiável a tarefa de completar a integração de nosso território, realizando empreendimentos para a recuperação, montagem e ampliação de um sistema de transportes, comunicações e energia que atenda aos mais distantes rincões do país.

Por isso mesmo, consideramos de suma importância a concepção dos eixos nacionais de integração e desenvolvimento, que norteia o programa de investimento lançado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso nos Progamas Brasil em Ação e Avança Brasil. Esse programa, que até agora não suscitou o amplo debate que merecem, parte da exigência histórica de finalizar a integração de modo a reduzir as disparidades entre as regiões. Sua execução terá profundas conseqüências, definindo qual será o mapa econômico, social e populacional do Brasil nas próximas décadas. Essa circunstância deveria ser suficiente para tornar urgente o debate público de suas propostas, de maneira a garantir que seu planejamento e execução levem em conta as prioridades do mercado interno, notadamente as que envolvem o abastecimento dos grandes centros populacionais; e contribuam decisivamente para a integração econômica e política com nossos vizinhos da América do Sul, uma vez que a solução dos problemas não poderá ser encontrada fora da cooperação com essas nações, inclusive com aquelas que ainda não são membros do Mercosul.

A correção dos desequilíbrios regionais pode exigir também a adoção de medidas de caráter político-administrativo, tais como a criação de novos estados.

A proposta, apresentada aqui para debate, pode ser justificada pela necessidade de promover ocupação mais planejada e menos predatória de determinadas áreas, além de tornar operacional a atuação do Poder Público diante da vastidão territorial e favorecer o controle das regiões fronteiriças da Amazônia brasileira, cada vez mais necessário diante da ameaça representada pelo narcotráfico. Apoia-se também na experiência exitosa da subdivisão dos antigos estados do Mato Grosso e Goiás, cujos custos foram infinitamente menores do que os benefícios que produziu.

Uma inovação institucional como essa envolve, é claro, questões de grande complexidade, a principal das quais é a possibilidade de agravar a desproporcionalidade já existente na Câmara Federal, a sobre-representação política dos estados menos habitados em detrimento dos mais populosos. Consideramos, no entanto, que o aumento do desequilíbrio, que a medida acarretaria num primeiro momento, poderia ser minimizado pela adoção, pelo Congresso, de regras temporárias de representação para esses estados. A médio e a longo prazo, porém, o redirecionamento dos fluxos imigratórios, que aquela inovação induziria, não apenas contribuiria para diminuir a pressão sobre as grandes cidades, como favoreceria, pelo adensamento populacional dessas regiões, uma representação política mais equilibrada do eleitorado nacional.

6. A POLÍTICA EXTERNA

Como se situar diante de um quadro internacional marcado pelo fim da bipolaridade dos tempos da guerra fria? No plano político, é um dado inegável a consolidação da liderança dos Estados Unidos, sua pujante força econômica e sua incontrastável supremacia militar. Todavia, a presença de outros países poderosos do ponto de vista econômico limita a hegemonia global dos Estados Unidos, situação que torna inevitáveis conflitos e contradições entre os que detém as rédeas do poder mundial. Contradições a que devemos estar atentos porque ampliam as margens para que certos países, entre os quais o nosso, possam negociar, estabelecer alianças as mais diversificadas e defender melhor seus interesses.

Mais do que no passado, somos hoje obrigados a dar maior atenção ao relacionamento internacional do Brasil, entre outras coisas porque estamos sendo chamados a desempenhar um papel mais ativo no cenário mundial. A política externa que vem sendo perfilada pelo governo Fernando Henrique Cardoso tem por premissa básica a avaliação de que a globalização é inexorável, mas que há limites para a ação do mercado. Como já vimos, inegáveis vantagens decorrem da globalização, ainda que sejam nítidos seus malefícios, porque ela se desenrola numa ordem internacional ditada pelos países hegemônicos. No cenário global continua imperando a lei do mais forte. Apesar disso, países como o nosso têm chances de contra-arrestar os efeitos mais negativos da globalização – o crescimento da desigualdade, o aprofundamento da exclusão, o enrijecimento da concentração de renda. Em outras palavras, não é apenas necessário mas também possível lutar pelo adoção de controle dos fluxos de capitais internacionais, de forma a refrear a especulação no mercado mundial e dificultar a eclosão das crises financeiras catastróficas que se abatem sobre a economia desse ou daquele país.

O próprio desenvolvimento fantástico das telecomunicações permite, por outro lado, um amplo diálogo entre as sociedades, por cima das fronteiras, circunstância que favorece a proliferação de teses e opiniões que correspondam aos valores universais da civilização – a democracia, os direitos humanos, a preservação do meio ambiente e a luta contra as desigualdades sociais – e a concretização de alianças com forças políticas democráticas em vários países. Na medida em que atuarmos de forma permanente e intensa nos círculos que influenciam o pensamento mundial e nossa política externa for cada vez mais baseada em teses que exprimam aqueles valores, mais fácil será a obtenção de apoios na opinião pública internacional para nossas posições.

Uma política externa que corresponda aos interesses e às aspirações dos brasileiros adotará inevitavelmente como princípios básicos a luta pela paz e a colaboração entre as nações; pela adoção de controle e mecanismos de preservação do meio ambiente; o respeito à soberania popular e aos direitos das nacionalidades e grupos étnicos; o zelo pelas tradições e pelas culturas nacionais; a cooperação com os vizinhos do Cone Sul e com toda a América Latina; o apoio aos povos da África que, com seu sangue e cultura, deram inestimável contribuição à construção do Brasil.

Em conseqüência, não nos alinharemos automaticamente a nenhum país, a nenhum bloco econômico ou militar, pois nossa divisa é o respeito à soberania e aos interesses de cada nação. Envidaremos esforços para fortalecer a Organização das Nações Unidas, inclusive pela reformulação da composição de seu Conselho de Segurança, adequando-o à realidade internacional de nossos dias. Repudiamos decisões que, marginalizando a ONU, têm como finalidade submeter nações e povos à vontade de países mais poderosos, como se viu no doloroso conflito de Kosovo.

Fazemos parte e somos solidários às lutas de muitos países pelo seu desenvolvimento e contra procedimentos injustos nas relações econômicas, financeiras e comerciais no mundo. Lutaremos dentro das organizações internacionais, especialmente o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio, para que deixem de ser instrumentos das nações privilegiadas e grupos econômicos multinacionais.

Entendemos que o projeto de criação de uma zona de livre comércio nas Américas (ALCA), tal como está atualmente configurado, parece beneficiar tão somente as grandes empresas norte-americanas. Como o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro em seu discurso na Cúpula das Américas em abril último, a ALCA só se tornará uma opção relevante para o Brasil se eliminar efetivamente as barreiras protecionistas e subsídios que hoje limitam a expansão das nossas exportações.

Apesar das dificuldades momentâneas, persistiremos no caminho do fortalecimento e da ampliação do Mercosul (pela adesão de outros países da América do Sul), trabalhando pelo estabelecimento de normas e processos que ultrapassem os limites de uma união aduaneira e evoluam no sentido da criação de instituições econômicas e políticas supranacionais. Da mesma forma, incentivaremos o prosseguimento das negociações do Mercosul com a União Européia com vistas à criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos regionais.

Apoiamos decididamente as gestões desenvolvidas pelo Brasil a favor de mecanismos de cooperação eficazes e eqüitativos para enfrentar os graves problemas decorrentes da mudança do clima no planeta. Por isso mesmo, encaramos com preocupação os entraves postos pelos Estados Unidos à entrada em vigor do Protocolo de Quioto, frustrando um esforço de anos de negociação internacional em torno desse tema.

Consideramos que o Brasil deve propugnar a inclusão de dois novos pontos na agenda internacional: a anulação de barreiras que impedem e dificultam a livre movimentação da força de trabalho entre os países e a adoção de medidas efetivas de assistência às populações que emigram em decorrência de genocídios e conflitos étnicos ou políticos, ou em busca de melhores condições de vida. Esses dois pontos, que se completam, indicam passos possíveis e desejáveis no sentido do estabelecimento de uma nova ordem internacional que não apenas consagre as desigualdades, mas enfrente os problemas aflitivos da civilização nesse limiar de um novo milênio.

III. OPÇÃO RADICAL PELA DEMOCRACIA POLÍTICA

Do ponto de vista formal, o Brasil é hoje uma das mais amplas e avançadas democracias do mundo. Dispomos igualmente de uma equação mais equilibrada do que no passado entre os três poderes. Apesar da não aprovação do parlamentarismo, avançamos decididamente no terreno da parlamentarização do poder, isto é, na direção da limitação das velhas e arraigadas prerrogativas autoritárias do Executivo, do fortalecimento do Congresso e da solidificação do papel constitucional do Judiciário. Foi-se o tempo em que ameaças de golpe ou de ruptura institucional faziam parte dos costumes políticos brasileiros. Os processos eleitorais se incorporaram à rotina da população e nenhum grupo político de expressão está à margem ou contesta as eleições como a forma mais legítima de disputa pelo poder. Reina no país ampla e inequívoca liberdade de organização e de expressão de pensamento. Cada vez mais a população aprende a usar os novos instrumentos legais que a democracia lhe pôs nas mãos, a demandar por seus direitos civis e políticos. Contra a tradição autoritária e patrimonialista, que resiste, são muitos os grupos sociais que cada vez mais assumem a democracia não apenas como postulado ideológico, mas também como norma da vida cotidiana.

Não se pode negar, entretanto, que persistem graves obstáculos, seja ao pleno exercício dos direitos civis, seja à plena democratização do sistema político brasileiro. Alguns deles são sociais e históricos, outros decorrem do modo como certas instituições foram se organizando ao longo da transição à democracia. No caso das instituições políticas, basta observar a dificuldade, senão a incapacidade, do sistema político de adequar-se ao intenso processo de democratização em curso na sociedade. Dificuldade que pode sanada com a adoção de medidas voltadas para combater eficazmente a corrupção, aumentar o grau de auto-organização da população e assegurar a influência direta e permanente do eleitorado sobre os seus representantes.

Há no país, talvez oriunda do longo período de resistência e contestação à ditadura, uma cultura oposicionista que não se conforma com os resultados eleitorais e insiste em inviabilizar as maiorias e os governos deles oriundos. O exercício democrático reclama respeito às regras e aceitação da manifestação do eleitorado para cada mandato.

Uma certa condescendência de setores da sociedade para com ações ilegais, paramilitares e violentas por grupos organizados é risco para a democracia e identifica uma vertente fascista, mesmo que travestida de revolucionária ou transformadora.

Refinadas formas de manipulação sobre movimentos sociais e organismos de participação dos cidadãos, posturas de controle hegemônico e de rígido alinhamento partidário, denunciam outra vertente de distorção e risco para o saudável aprofundamento da democracia no Brasil.

O PSDB defende a democracia política como ponto fundamental, não abre mão de seus pressupostos, submete-se aos resultados favoráveis ou desfavoráveis das eleições e não quer ver os instrumentos participativos e as organizações sociais submetidos a manipulações ou ao controle hegemônico de partidos.

1. O SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL

Apesar de todos os avanços obtidos, o arcaísmo continua impresso em letra de fôrma no sistema político-eleitoral brasileiro. Ele não só funciona mal como representa desigualmente a população. Apesar de adotarmos o voto proporcional, cujo objetivo é tornar o Poder Legislativo um espelho da diversidade da população realmente existente, teimamos em dar menor representação do que a devida aos estados mais populosos e a beneficiar o interior em detrimento das capitais, subrepresentando assim, brutalmente, a maioria da população urbana do país.

Por outro lado, o modo pelo qual praticamos a eleição proporcional não favorece a organização política dos grupos sociais em partidos fortes e consistentes, nem a identificação permanente do eleitor com o seu partido. Em primeiro lugar, a permissão de coligações em eleições proporcionais contribui para dar alento a agremiações que não se sustentariam com seus próprios votos. Distorcendo o sentido da manifestação do eleitor, o expediente eleitoral premia legendas de aluguel e minorias insignificantes, que acabam tendo um papel político maior do que o seu peso autorizaria.

Outra distorção está na própria existência de listas abertas. Nas eleições legislativas, os partidos apresentam aos eleitores uma lista muito grande e não hierarquizada de candidatos. Isto favorece a captação de votos nos mais diferentes nichos eleitorais, mas afrouxa a coesão partidária, minimiza a importância do programa e torna secundária a compatibilidade das idéias do candidato com a orientação do partido. Do lado do eleitor, isso significa que ele pode estar ajudando a eleger candidatos que não são absolutamente os de sua preferência, distorção ampliada pelo mecanismo dos quocientes eleitorais.

Nessas circunstâncias, os candidatos são obrigados a disputar seus mandatos parlamentares contra aqueles que ocupam a mesma faixa eleitoral, contra os que lhes são política e ideologicamente mais próximos; a disputa, assim, é por vezes mais intensa entre candidatos do mesmo partido do que entre candidatos de partidos adversários. Dificultando a identificação do eleitor com o "seu" partido, esse sistema "distritaliza" o voto no pior sentido, favorecendo os que controlam currais eleitorais e os que representam corporações (sindicais, religiosas, profissionais) em detrimento daqueles que expressam valores, concepções e interesses mais gerais presentes no eleitorado. Não apenas torna o parlamentar, individualmente, o verdadeiro "dono" do mandato, como diminui sistematicamente o papel político do partido, que numa democracia representativa é ou deve ser o organizador da população, o verdadeiro representante, o mediador entre o eleitorado organizado e o Estado. Contribui assim para a baixa densidade ideológica, baixa representatividade e baixa inteligibilidade, que caracterizam os sistemas eleitoral e partidário brasileiros.

2. AS REFORMAS POLÍTICAS

Entre as alterações necessárias no sistema partidário brasileiro, algumas são internas ao funcionamento dos partidos; dependem destes, mais do que da lei, para serem implementadas, como a adoção de mecanismos consistentes que garantam a fidelidade partidária. Entre aquelas que afetam o sistema em seu conjunto, uma primeira série deve estar voltada para desfechar um golpe certeiro na infra-estrutura da corrupção eleitoral. Este é um problema endêmico nos sistemas políticos de todo o mundo, que no Brasil de hoje atinge níveis preocupantes, pela ausência de regras claras que limitem a ação dos grupos econômicos e tornem transparentes os mecanismos de financiamento das campanhas eleitorais. Cada vez mais se impõe a necessidade de estabelecer tetos às doações de pessoas físicas e, sobretudo, de adotar o financiamento público dos partidos e das campanhas eleitorais.

A adoção do sistema proporcional distritalizado seria um enorme avanço nesse sentido. Nesse sistema, os partidos apresentam uma lista já hierarquizada de candidatos e metade das cadeiras parlamentares seriam preenchidas por eleições realizadas por distritos formalmente definidos. Tal mudança significaria uma profunda mexida nos esquemas e costumes estabelecidos, forçando a experimentação e a busca por novos equilíbrios que, por si sós, seriam imensamente saudáveis para a vida política brasileira. Além disso, a adoção de um sistema proporcional desse tipo (distritalizado, do tipo alemão) aumentaria a competição entre os partidos e a identificação do eleitor tanto com seu representante como com o seu partido. Contribuiria também para reduzir uma das mais graves fontes de corrupção do sistema político, qual seja, o custo proibitivo das campanhas eleitorais. Com o novo desenho dos distritos, reforçaria a tendência de os municípios do interior se associarem, criando condições, no plano político, para o enfrentamento comum e planejado dos graves problemas dos conglomerados urbanos. Aumentaria, além disso, a percentagem dos eleitos com os votos das capitais, cuja representação é hoje claramente subestimada, e incentivaria enormemente a participação popular. Mas a principal vantagem desse tipo de sistema seria, sem dúvida, que ele corrigiria as distorções hoje existentes na proporcionalidade eleitoral, trazendo-nos para mais perto da realização do ideal democrático: um homem, um voto.

A preferência pelo sistema proporcional misto não é uma opção dogmática. Entendendo que reformas dessa profundidade nas regras do jogo democrático dependem de um amplo consenso, o PSDB estará aberto à discussão de quaisquer alternativas de reforma eleitoral que possam representar avanços no sentido de combater a corrupção, limitar a influência do poder econômico, fortalecer os partidos e tornar mais firme e transparente a relação entre representantes e representados.

3. O PARLAMENTARISMO

Para favorecer o enraizamento dos partidos e aumentar o poder da sociedade de controlar os seus representantes, são necessárias alterações no sistema eleitoral e na forma de governo. A mudança que pode e deve ser vista como a síntese de todas as propostas de reformas democratizadoras do sistema político é a adoção do parlamentarismo. Ao separar as funções de chefe de Estado e chefe de governo, e fazer da chefia do governo a expressão direta da maioria parlamentar, o parlamentarismo significaria, imediatamente, a responsabilização do Poder Legislativo, que toda a tradição política ocidental reconhece como, por definição, a principal expressão do poder popular numa democracia representativa.

Ao delegar ao partido ou à coligação majoritária o direito de montar o Ministério, o parlamentarismo reforça o papel dos partidos e evita um dos principais problemas do presidencialismo: reduz o fosso atualmente existente entre as alianças políticas feitas para ganhar eleição e os acordos que se fazem entre os grupos que efetivamente governarão. Ao fazer com que, ao contrário do presidencialismo, a vontade do eleitorado se traduza imediatamente na formação do governo, o parlamentarismo contribui para debelar uma das pragas dos sistemas burocráticos modernos, qual seja, a existência de "poderes ocultos", de grupos articulados, grupos de interesse e anéis burocráticos que decidem políticas sem que tenham sido democraticamente autorizados para tal.

Ao incrementar significativamente a responsabilidade política dos governantes (e da oposição), o parlamentarismo se torna uma garantia contra a corrupção e o populismo fiscal, pois limita consideravelmente a margem de manobra dos que se beneficiam ou implementam políticas sem a menor preocupação com a racionalidade e com as necessidades reais do povo e do Estado. Ao transformar os partidos no principal agente do debate e da tomada de decisões, trabalha, ao mesmo tempo, no sentido do adensamento da Federação e da verdadeira nacionalização da política brasileira, pois consolida a diversidade das unidades federadas e faz do Poder Legislativo a arena onde as legítimas, diferentes e contraditórias demandas da sociedade e dos estados podem ser equacionadas e integradas.

Ao propor a reabertura de discussão sobre o sistema de governo e a realização de um novo plebiscito, o PSDB não está preocupado com vantagens conjunturais, mas defende uma posição de princípio. Não apenas nasceu com essa bandeira como se compromete a continuar lutando para convencer a maioria do eleitorado de que o parlamentarismo é o melhor caminho para enraizar a democracia em nossos hábitos e costumes. Ao insistir nessa posição, avaliamos, a nosso ver acuradamente, que o vetor democratizante da vida brasileira leva à progressiva parlamentarização do poder político, conduz à subordinação cada vez maior da elite política e do sistema político à população e ao eleitor, aumenta sobremaneira a capacidade da sociedade politicamente organizada influir e controlar o seu governo.

Fiel à proposta do parlamentarismo, o PSDB entende que ele deve ser implantado com apoio inequívoco da sociedade brasileira. Enquanto um plebiscito não mudar o sistema de governo, é necessário aperfeiçoar o presidencialismo vigente, de forma a garantir a governabilidade e a democracia, dando condições do Estado ser eficiente. Nas atuais condições de sistema político, um instituto como o das medidas provisórias é imprescindível para evitar a paralisação da ação estatal e a vacância legal, que comprometem a governabilidade ou a pronta resposta a problemas sociais e econômicos. Encontrar o equilíbrio, através de contrapesos e limites, no uso deste tipo de instituto e nas relações entre os Poderes é tarefa ainda inconclusa em nosso processo democrático.

4. DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

A democratização da sociedade brasileira avança pela radicalização da democracia política e pela sua articulação com mecanismos da democracia participativa. Na verdade, uma das grandes novidades da política brasileira de hoje é a quantidade e a qualidade de novos atores, sujeitos sociais, movimentos políticos, organizações não-governamentais que se espalham por todo o tecido social. Essa explosão de associativismo popular – que vem desde a resistência contra o regime militar, mas ocorreu basicamente sob a democracia – desmente todos aqueles que sempre insistiram na fraqueza da sociedade civil brasileira e no caráter amorfo dos grupos sociais para melhor justificar sua defesa do Estado autoritário. Ao contrário disso, o que se verifica é que o próprio avanço da democracia política vem propiciando cada vez mais aos cidadãos a oportunidade de se auto-organizar, debater, reivindicar, pressionar e fazer valer os seus direitos em todas as esferas da vida pública. Acresce essa mudança de mentalidade o fato de que a população se manifesta cada vez mais predisposta a utilizar mecanismos de democracia direta consagrados na Constituição, como a consulta, a proposição, o plebiscito e o referendo. Por meio de conselhos, discussões de orçamentos e outras formas de ação popular, temos dados passos significativos no sentido da montagem, controle e definição de prioridades para as políticas públicas.

O governo do presidente Fernando Henrique empreendeu a maior descentralização sob controle social das políticas públicas que a história republicana conhece. Ele cumpre o ideário da Constituição e das avançadas leis que regulam áreas como saúde, educação, assistência social, agricultura familiar, capacitação profissional e outras, todas elas submetidas a um processo regular de descentralização ou de municipalização sob controle social de conselhos ou comissões.

Este processo necessita de permanente revigoramento, com a correção das distorções que venham a ocorrer num país tão grande e tão diversificado. Casos de manipulação dos conselhos por agentes do poder local ou de qualquer partido político, reclamam atenção e regras de prevenção.

O "terceiro setor" mostra-se cada vez mais robusto no Brasil e as organizações não governamentais, as iniciativas comunitárias e as experiências de voluntariado representam possibilidades concretas de complementação das políticas públicas e de solução de problemas, em especial, nas áreas sociais.

Fiel às suas origens, sintonizado com esse processo libertador e sob inspiração dos princípios de descentralização e de participação, o PSDB busca incessantemente novos avanços que radicalizem a democracia, tornando cada