DECLARAÇÃO PROGRAMÁTICA DO
PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA
(Documento preliminar para discussão interna)
Coordenador: Deputado Alberto Goldman
Brasília, 18 de maio de 2001
ÍNDICE
I.
OS GRANDES DESAFIOS DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA *
1.
O PAÍS ESTÁ MUDANDO PARA MELHOR *
2.
A TOMADA DE CONSCIÊNCIA *
3.
A REALIDADE DA GLOBALIZAÇÃO *
4.
A CRISE DO ESTADO *
II.
OS CAMINHOS DA REFORMA DO ESTADO E DO DESENVOLVIMENTO *
1.
O EQUILÍBRIO FISCAL*
2.
REDUZIR A DEPENDÊNCIA EXTERNA *
3.
A DEFESA DA ECONOMIA BRASILEIRA *
4.
POLÍTICA PARA A PEQUENA EMPRESA *
5.
A INTEGRAÇÃO DO PAÍS *
6.
A POLÍTICA EXTERNA *
III.
OPÇÃO RADICAL PELA DEMOCRACIA POLÍTICA *
1.
O SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL *
2.
AS REFORMAS POLÍTICAS *
3.
O PARLAMENTARISMO *
4.
DEMOCRACIA PARTICIPATIVA *
5.
COMBATE À CORRUPÇÃO *
6.
MEIOS ELETRÔNICOS: A PARTICIPAÇÃO EFICIENTE *
IV.
PLATAFORMA PARA UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA *
1.
ECONOMIA URBANA *
2.
GOVERNANÇA METROPOLITANA *
3.
COMUNIDADE CÍVICA *
4.
SEGURANÇA PÚBLICA *
5.
TRABALHO, EMPREGO E RENDA *
6.
PREVIDÊNCIA SOCIAL *
7.
SAÚDE PÚBLICA *
8.
EDUCAÇÃO *
9.
CULTURA *
10.
DESENVOLVIMENTO RURAL *
11.
COMBATE ÀS DISCRIMINAÇÕES *
12.
POLITICA DA JUVENTUDE*
V.
A NOVA ETAPA DO PSD
I. OS GRANDES
DESAFIOS DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA
A social-democracia tem história
e tem futuro. Adentramos o século XXI como uma das forças políticas
e sociais que moldaram o mundo, tendo exercido ontem e exercendo
hoje uma influência sobre milhões de pessoas e ocupando postos
de liderança política e governamental em grande parte do mundo.
Nossa marca no "breve século XX" foi tão forte que a forma de
Estado mais avançada que a humanidade produziu – tanto no tocante
à vigência das liberdades formais como em matéria de conquistas
sociais – é chamada de Estado social-democrático.
A social-democracia brasileira é relativamente nova. Nascemos
sob o impulso das mudanças democratizantes que se seguiram à longa
noite do autoritarismo. Como partido, temos doze anos, mas condensamos
muito da experiência política do povo brasileiro. Participamos
ativamente das lutas que culminaram nas duas conquistas fundamentais
nas últimas décadas – a construção da democracia política mais
ampla que a história brasileira conheceu e a construção da estabilidade
monetária depois de meio século de inflação. Acreditamos que elas
são o ponto de partida para um novo tipo de desenvolvimento, mais
justo e igualitário, que colocará o Brasil como uma das comunidades
líderes no século que se inicia. Politicamente, somos parte do
que nossa sociedade produziu de melhor.
Com seu núcleo original oriundo do antigo PMDB – Partido do Movimento
Democrático Brasileiro, então trincheira de luta contra o regime
militar, o PSDB – Partido da Social-Democracia Brasileira, nasceu
da confluência de diferentes vertentes do pensamento político
contemporâneo. Do trabalhismo o PSDB recolheu o princípio da prioridade
do trabalho sobre o capital. Da democracia cristã trouxe a ética
da solidariedade e da participação comunitária, assimilada dos
pensadores católicos personalistas e da ação política de líderes
que comandaram a reconstrução democrática da Europa no pós-guerra.
Do socialismo e da vertente democrática do comunismo herdou o
patrimônio das lutas dos trabalhadores pela ampliação do direito
do voto e pela construção de uma sociedade igualitária, bem como
o combate aos totalitarismos de direita e de esquerda que infelicitaram
o século XX. Os socialistas democráticos continuaram fiéis à tese
da superação das formas mais perversas de capitalismo, considerando
no entanto que esta deveria ser perseguida não só com a manutenção
e ampliação das liberdades civis e políticas, como também preservando
a economia de mercado, que deveria ser socialmente regulada. Dos
liberais progressistas o PSDB aprendeu que não há bem maior do
que a liberdade e que o principal legado da civilização ocidental
está num conjunto de liberdades civis e políticas sem as quais
não há avanço social possível.
Produto da confluência dessas diferentes vertentes do pensamento
político contemporâneo, o Partido da Social-Democracia Brasileira
continua unido por uma história comum e sob a bandeira da democracia
como valor universal – da democracia como terreno de luta pela
superação das desigualdades e pela construção de uma sociedade
igualitária, pluralista, solidária, que deverá ser o legado –
de significação mundial – do povo brasileiro ao novo século.
É a opção radical pela democracia que nos fornece norte e destino.
Em função dela recusamos tanto o populismo como o autoritarismo,
tanto o fundamentalismo neoliberal como o nacional-estatismo atrasado.
Como diz o Manifesto de Fundação:
"Diferentemente dos populistas de ontem e de hoje, entendemos
que a preocupação com uma distribuição justa da renda e da riqueza
exige definição clara das prioridades das políticas públicas e
estímulo à eficiência na produção, sem o que não há medidas distributivas
que se sustentem. Diferentemente dos autoritários, afirmamos que
as reformas desejadas não virão como doação providencial de um
Estado forte ou de uma chefia autocrática, mas sim como resultado
do livre exercício das pressões e da negociação dos conflitos
no âmbito da sociedade civil.
"Recolhendo a herança democrática do liberalismo, não partilhamos
com os liberais conservadores a crença cega no automatismo das
forças do mercado. Nem pretendemos, como eles, tolher a ação reguladora
do Estado onde ela for necessária para estimular a produção e
contribuir para o bem-estar, e desde que a ação estatal seja controlada
pela sociedade e não guiada pelo interesse corporativo da burocracia
ou pela vocação cartorial de grupos privados. Por isso, na concepção
de democracia do PSDB, a racionalidade da relação entre os fins
desejados pela sociedade e os meios disponíveis requer transparência
da informação e participação ampla dos cidadãos nas decisões sobre
as políticas públicas".
Mais de dez anos depois, não há o que tirar nem pôr nessa formulação.
Ela não só continua substancialmente válida como fornece uma sólida
diretriz, capaz de orientar a ação política diante das profundas
e complexas transformações mundiais e nacionais. Se é possível
dizer que o programa de fundação do partido envelheceu em alguns
aspectos, não se pode dizer a mesma coisa dos princípios que o
norteiam, dos objetivos gerais que o partido se propôs a atingir.
1. O PAÍS ESTÁ MUDANDO PARA MELHOR
A situação política do país não
é a mesma do momento da fundação do PSDB. De lá para cá, o Brasil
evoluiu. Está mudando, e mudando para melhor. Quando o partido
foi criado, participávamos com entusiasmo da elaboração da nova
Constituição; consideramos que ela de fato expressou muitas conquistas
progressistas. Assinalávamos, porém, a decepção provocada pela
Nova República, decepção que abriu caminho para a vitória de Fernando
Collor de Mello na eleição presidencial de 1989 e para a montagem
de um governo que se apresentava como um reformador radical, mas
que não tinha nenhum compromisso com as instituições democráticas.
Sem um programa confiável de reformas e, além do mais, tentando
fazer reformas a golpes de borduna, o governo Collor agravou dramaticamente
o descontrole da economia e acabou pondo a sociedade diante da
alternativa de mudar o governante ou perecer. O fato de a crise
ter sido resolvida sem ruptura da ordem constitucional diz muito
a respeito da maturidade da jovem democracia brasileira. A mobilização
pelo impeachment galvanizou a população, provocou a união
da maioria das forças políticas e solidificou as instituições,
gerando condições para uma mudança qualitativa. Ao assumir a Presidência,
Itamar Franco buscou e conseguiu o apoio de forças políticas democráticas
e progressistas, levando para o governo inclusive líderes do PSDB,
como Fernando Henrique Cardoso.
Só então tornou-se possível a solução do mais grave problema que,
superada a ditadura, afligia o país – o caos na economia, a ameaça
de hiperinflação. Elaborado e posto em prática com ousadia
e bom senso, o Plano Real acabou tendo um êxito vigoroso e profundas
e benéficas conseqüências políticas. Em 1994 abriu caminho
para a assunção do candidato do PSDB à Presidência da República,
alicerçado num amplo arco de alianças, nucleado pela relação com
o Partido da Frente Liberal. Com o governo de Fernando Henrique
Cardoso começou uma nova etapa na vida brasileira.
O governo de Fernando Henrique Cardoso não apenas formulou o programa
de reformas da sociedade e do Estado mais ambicioso que se tem
notícia desde a Revolução de 30, como tem conseguido levar adiante
esse programa com amplo apoio da sociedade, dentro das regras
democráticas. Alterações modernizadoras foram feitas na Constituição
e na legislação ordinária. A política de estabilização monetária
foi exitosa e o processo de reconstrução das relações entre Estado,
capital privado nacional e empresas multinacionais, ganhou impulso.
Com o apoio da sociedade e com ampla maioria no Congresso Nacional,
as áreas de educação, saúde, telecomunicações e reforma agrária,
entre outras, foram objeto de políticas democratizantes, com nítidas
repercussões sociais.
2. A TOMADA
DE CONSCIÊNCIA
Ao insistir em que os alicerces
do novo Brasil foram lançados nesses anos do governo Fernando
Henrique Cardoso, não hesitamos também em reconhecer que estamos
longe do país que almejamos. Ao longo da nossa história, problemas
não resolvidos se acumularam; e novos apareceram, gerados em parte
pela mutante realidade internacional. Continuamos a ser uma nação
marcada por injustiças e desigualdades sociais, temos um país
com enormes disparidades regionais. Nossas instituições não atendem
aos marginalizados e aos excluídos. Possuímos um Estado ainda
caracterizado pelo arcaísmo e pela ineficiência. Essas e outras
mazelas nos atormentam e nos motivam para a luta como cidadãos
e dirigentes políticos, homens de partido hoje com responsabilidades
governamentais.
Dois são os principais desafios que o Brasil está enfrentando,
ambos profundamente imbricados: a realidade da globalização e
a necessidade de completar a reforma do decadente Estado nacional-desenvolvimentista
A grande diferença entre o momento atual e o da fundação do PSDB,
é que nem o país nem o partido tínhamos então consciência clara
da extensão e profundidade das transformações sociais, econômicas,
tecnológicas, culturais e políticas em curso no mundo. Para os
filhos de uma sociedade e de um mundo político e ideológico relativamente
fechado como era o nosso, era difícil perceber ou antecipar as
conseqüências que adviriam do novo impulso universalizador das
relações sociais, econômicas e financeiras desencadeado em escala
planetária.
Era visível, por outro lado, o esgotamento do Estado nacional-desenvolvimentista.
Ele que durante cerca de 50 anos havia prestado bons serviços
à industrialização, agora se encontrava exaurido, endividado e
corrompido – isso justamente no momento em que mais precisávamos
de um Estado ágil e eficiente. Mas, se essa crise era perceptível,
era nebuloso o caminho pelo qual poderia ser superada.
A Constituição de 1988 foi uma expressão desse momento de transição,
em que a falta de compreensão clara dos novos problemas levava
os atores políticos a se deixarem guiar por idéias e concepções
já então anacrônicas. A Constituinte consagrou de maneira inédita
o conjunto de liberdades políticas e direitos civis pelo qual
o país havia se batido ao longo de duas décadas. Ao mesmo tempo,
cristalizou uma série de regras, procedimentos e instituições
que engessavam a economia, sobrecarregavam financeiramente o Estado
e não mais correspondiam às novas necessidades que a sociedade
precisava enfrentar. As formas de articulação entre Estado e mercado
que haviam sido criadas e consolidadas entre os anos 30 e 80,
foram juridicamente institucionalizadas no momento mesmo em que
a transnacionalização da economia, o colapso do socialismo realmente
existente e o esgotamento interno do projeto nacional-desenvolvimentista
decretavam a sua morte. As contradições tornaram-se, assim, mais
agudas.
A social-democracia brasileira foi um dos agrupamentos políticos
que mais cedo compreenderam a nova situação. Em vez de fechar
os olhos, enterrar a cabeça na areia e esperar que os ventos da
história levassem de roldão o aparentemente triunfante "neoliberalismo",
tratamos de tirar as conseqüências necessárias desse aprendizado.
Fomos, por isso, capazes de construir novas alianças, qualificarmo-nos
como pólo aglutinador de todas as forças progressistas, liberais
e democráticas que, com maior ou menor grau de consciência, optaram
por reformas estruturais para tornar viável um novo país. Fato
raro na política brasileira, uma formação política que não era
majoritária nem na sociedade, nem no Congresso, foi, entretanto,
capaz de aglutinar uma maioria heterogênea, estruturar não apenas
uma coligação de partidos, mas uma aliança social, criando um
novo bloco histórico com condições de perdurar.
3. A REALIDADE
DA GLOBALIZAÇÃO
Um dos desafios que a sociedade
brasileira e o Estado nacional enfrentam hoje está no processo
de globalização. Este não é um fenômeno único, mas múltiplo, envolvendo
aspectos tecnológicos, financeiros, comunicacionais, ideológicos
e culturais. A globalização é habitualmente tratada de maneira
ideológica, de modo a aplastar toda diferença histórica entre
os países, como se as instituições políticas e os costumes sociais
fossem descartáveis e como se todos estivéssemos condenados a
ser meras variantes da mesma matriz. Não devemos cometer o equívoco
de reduzir o processo real a esse discurso. Gostemos ou não, trata-se
– a globalização – de um fato social inequívoco, uma realidade
histórica prenhe de riscos, mas também de oportunidades. Cabe,
portanto, ser encarada com realismo e determinação, não só porque
dela não podemos fugir como porque podemos emergir engrandecidos,
ocupar um papel de primeiro plano no cenário internacional ou
fracassarmos como nação.
Do ponto de vista econômico, o fenômeno da globalização atual
consiste na extraordinária expansão dos fluxos financeiros internacionais,
ocorrida nas duas últimas décadas, e no seu evidente impacto sobre
as políticas monetárias e cambiais das economias nacionais. Nesse
sentido, ela é um produto do processo de inovação tecnológica
em curso, que barateou enormemente os custos dos transportes e
das comunicações. Permanecendo nacional a mão-de-obra, a inédita
mobilidade de capitais assim gerada se fez acompanhar pela internacionalização
da produção e dos mercados, pelo incremento do comércio mundial.
Esse aumento não se deu apenas entre empresas, mas sobretudo entre
unidades da mesma empresa, localizadas em pontos diferentes do
planeta. Por outro lado, como os países são selecionados por essas
corporações multinacionais para receberem investimentos, com base
nas vantagens comparativas que oferecem, acabaram se transformando
em agressivos competidores por tais capitais externos.
Não há como não perceber que tudo isso tornou obsoleto o que parecia
viável no "século curto" que medeia entre a Primeira Guerra Mundial
e a queda do Muro de Berlim, ou seja, a construção de economias
nacionais auto-suficientes, capazes de substituir quase todas
importações e de servir de base para a realização da soberania
clássica. Na mesma medida, a globalização arquivou ou tende a
arquivar a maioria das velhas vantagens comparativas dos países
em desenvolvimento, tais como mão-de-obra barata e matérias-primas.
A variável decisiva passou a ser o conhecimento, a qualidade da
mão-de-obra, a capacidade de fazer pesquisa científica e tecnológica
e de incorporá-la ao processo de produção. Isso torna irremediavelmente
pesado o custo derivado da desigualdade social, da baixa escolaridade
e do analfabetismo, da ausência de investimentos em pesquisa básica
e aplicada, da débil conexão do empresariado com a universidade
e da própria exigüidade da comunidade científica.
Ao tempo em que restringia drasticamente o espaço das alternativas
e das escolhas nacionais, a globalização tornou o papel do
Estado ainda mais decisivo, ao contrário da lenda. Embora
não tenham perdido soberania sobre os seus territórios, os estados
nacionais viram cada vez mais diminuídas suas possibilidades de
controle da moeda e foram obrigados a se dobrar a regras econômicas
e padrões de conduta comerciais definidos internacionalmente.
Tudo isso alterou dramaticamente, mas não eliminou, o âmbito da
ação governamental. Esta voltou-se em grande parte para ajudar
as economias de seus países a desenvolver e sustentar condições
estruturais de competitividade em escala global.
A globalização, além disso, não é um fenômeno estritamente financeiro.
Ela é, sobretudo, informacional e cultural. Desse ponto de vista,
ela tanto amplia o espaço para a manifestação das diversidades
nacionais e culturais como favorece o estreitamento dos laços
entre os povos e nações. Especialmente,ela vem tornando possível,
pela primeira vez na história, a generalização da democracia em
todo mundo, a criação de uma opinião pública internacional vigilante
quanto aos abusos contra os direitos humanos.
Nenhuma dessas transformações, portanto, deve ser vista em termos
maniqueístas. A enumeração das conseqüências da globalização fornece
um roteiro para o debate e pode ser transformada num programa
de ação. Mas ele estaria incompleto se não enfocássemos a questão
do Estado do ponto de vista nacional. Pois boa parte das dificuldades
em que estamos mergulhados resulta do fato de que o Estado brasileiro
entrou internamente em crise justamente no momento em que era
desafiado externamente pelas transformações na economia e pelas
mudanças no equilíbrio de forças internacionais.
4. A CRISE
DO ESTADO
Nas relações internas, o principal
problema político é e continua sendo a crise do Estado. E a principal
batalha da social-democracia e de todas as forças autenticamente
progressistas é e deve ser pelo aprofundamento da reforma do Estado,
pela reconstrução em bases democráticas de sua relação com o mercado
e com a sociedade civil. Se a realidade da crise é perceptível
para todos, não há consenso quanto ao diagnóstico de suas causas,
nem quanto aos remédios que poderão controlá-la e superá-la.
Como social-democratas, não concordamos com as propostas neoliberais
que propugnam um corte radical nas funções do Estado, sua redução
a um Estado mínimo que não interfira na economia e não tenha qualquer
responsabilidade, a não ser demagógica, para com os mais pobres.
Recusamos também o entreguismo dessa corrente, que passa facilmente
por cima da existência de interesses nacionais múltiplos e contraditórios
e se comporta como se fosse irrelevante para o país ter controle
de sua moeda, ou como se fosse possível superar as tremendas desigualdades
existentes sem um Estado afirmativo e eficiente. Além de utópico,
um Estado que se curvasse à soberania dita "incontrastável" do
mercado, que se resumisse às funções clássicas teorizadas pelos
liberais dos séculos XVII e XVIII, seria criminoso, pois significaria
abrir mão de toda possibilidade de induzir o desenvolvimento e
de promover uma sociedade mais igualitária e mais solidária.
Por outro lado, tampouco concordamos com correntes da velha esquerda,
que resistem a ajustar contas com os fatos e continuam acreditando
que o Estado pode e deve permanecer controlando diretamente extensas
áreas da economia e interferindo numa série de campos onde a iniciativa
privada pode fazer mais e melhor. Sobretudo, recusamos o modo
pelo qual elas aceitam que os indivíduos e as liberdades individuais
e políticas sejam sacrificados em nome de um suposto "bem comum",
cuja face real é a ditadura e a igualdade na miséria. Essa velha
esquerda fecha os olhos à falência financeira dos poderes públicos,
às dificuldades da administração estatal em gerir empreendimentos
econômicos, à facilidade com que um Estado maximizado sucumbe
ao assalto da corrupção e do corporativismo, e à inexistência
de poupança e recursos públicos suficientes para atender às necessidades
de investimento da economia.
É curioso ver como no mundo da política real aquela direita e
essa esquerda, aparentemente antagônicas, confluem na reação à
mudança e no abraço ao velho Estado com suas práticas corporativas
e clientelistas. De maneira sub-reptícia uma e explícita outra,
ambas acabam por defender o status quo e freqüentemente
se aliam na proposição de políticas sociais inviáveis e demagógicas.
É um grave equívoco supor que seja possível optar pelo Estado
contra o Mercado e vice-versa. Precisamos dos dois. Diferentemente
tanto do neoliberalismo como do velho estatismo, a social-democracia
desdramatiza, por assim dizer, o necessário vínculo entre o Estado
e o Mercado, ou entre a empresa estatal e a empresa privada. Na
verdade, ela desloca o eixo da opção do plano ideológico abstrato
para o plano histórico, objetivo e pragmático. Recusa qualquer
posição doutrinária e considera necessário analisar caso a caso
qual a combinação entre empresa privada de capital nacional, empresa
privada de capital estrangeiro e empresa estatal que mais se presta,
em cada circunstância histórica concreta, aos objetivos buscados:
o dinamismo da economia, a promoção do desenvolvimento, a superação
das desigualdades, a promoção da eqüidade. Desse ponto de vista,
queremos sim um Estado que intervenha melhor, um Estado que longe
de sufocar a iniciativa da sociedade seja o seu aliado necessário
na luta por mais igualdade, liberdade e autodeterminação.
II. OS CAMINHOS
DA REFORMA DO ESTADO
E DO DESENVOLVIMENTO
Sabemos que, para nos transformar
numa nação próspera, é imprescindível retomar e imprimir um ritmo
mais rápido ao crescimento econômico, que não pode mais, como
no passado, utilizar os serviços – socialmente perversos – da
inflação. Mas não basta crescer. O desenvolvimento econômico é
sempre medido pela capacidade de um país de gerar emprego, ocupação
e renda, e de elevar a qualidade de vida da população. Mais do
que isso, temos que promover um tipo de desenvolvimento que resguarde
os interesses das futuras gerações, controle e reduza drasticamente
a dilapidação dos recursos da Natureza.
Em que condições e com qual política é possível retomar em grande
escala um desenvolvimento econômico e social capaz de superar
as graves mazelas e desigualdades ainda existentes na sociedade
brasileira? Em primeiro lugar, é preciso dizer, contra a arraigada
visão pessimista sobre o desempenho do país, que não começamos
do zero. Embora dependente, a trajetória histórica do Brasil no
século XX difere de outros países que partiram das mesmas condições,
pelo fato de termos sido capazes de reagir com grande dinamismo
às ondas de inovação tecnológicas e às transformações nas relações
sociais de produção, ciclicamente desencadeadas nos países centrais.
Por isso mesmo, em vez de joguetes passivos e subalternos dessas
transformações, fomos capazes de crescer tanto em épocas de expansão
como em épocas de depressão do mercado mundial.
A situação atual é distinta, justamente por conta dos dois fenômenos
básicos já apontados: o esgotamento do estado nacional-desenvolvimentista
e a profunda mudança nas relações da economia brasileira com o
resto do mundo, ocorrida em função da revolução tecnológica e
informacional em curso. Foi a profundidade da crise vivida nos
anos 80 e 90 que nos demonstrou a impossibilidade de voltar a
crescer utilizando modelos e políticas econômicas que foram boas
no passado, cumpriram o seu papel, mas estão completamente defasadas
diante das novas realidades.
Nas últimas décadas assistimos à progressiva decadência da maioria
das empresas estatais, seja por vícios na sua própria gestão,
seja por distorções da política econômica. Tal situação tornou-se
insustentável quando ficou evidente a incapacidade de o Estado
brasileiro fornecer novos recursos para a expansão das estatais,
justamente no momento em que essas áreas de serviço público –
energia, transportes, telecomunicações, água e saneamento básico
–precisavam de novos investimentos.
A mudança no caráter de concessão dos serviços públicos e a privatização
de empresas estatais, além de exigências do desenvolvimento das
forças produtivas, acabaram por se tornar passos decisivos para
a ruptura com uma ética e com uma cultura política profundamente
arraigadas na vida brasileira. Secularmente se entendia entre
nós que, face a qualquer problema social e econômico, a solução
seria sempre levar o Estado a se encarregar dessas atividades.
Foi dessa maneira que foram enfrentadas questões como a exploração
de minérios, a fabricação de aço, a construção de ferrovias e
rodovias, o setor energético e o de meios de comunicação, a montagem
de bancos e assim por diante.
O esgotamento desse modelo impôs a necessidade da privatização.
Essa solução gera, por sua vez, novos problemas, demanda um duro
aprendizado da população e do Poder Público, e exige a criação
de um novo tipo de agências estatais, desta vez regulatórias,
capazes de elaborar normas e fiscalizar a atuação das empresas
de serviço público, especialmente daquelas que foram privatizadas.
A nova situação, além disso, torna o consumidor do bem público
mais exigente, o cidadão e as organizações de defesa do consumidor
e dos direitos civis em geral mais vigilantes.
A visão neoliberal do "estado mínimo" toma a privatização como
um bem em si mesma. A visão do PSDB é outra: trata-se de escolher
em cada situação concreta a melhor alternativa para a expansão
da infra-estrutura do país, levando em conta as necessidades da
economia e do cidadão-consumidor. Nessa perspectiva, empresas
estatais bem geridas, dentro de um ambiente competitivo, podem
ser uma reserva operacional importante para o Poder Público e
um reforço para a própria capacidade de regulação da atividade
econômica privada.
No mesmo sentido, optou-se por promover um choque de competitividade
na economia brasileira, criando condições para a incorporação
de novas tecnologias que se refletem na qualidade e no preço do
produto, beneficiando o consumidor e nos habilitando a disputar
com êxito mercados de outras partes do mundo. A abertura controlada
da economia colocou-se assim na ordem natural das coisas: se o
desenvolvimento econômico sustentável é possível, e ele o é, deverá
ser balizado pela integração competitiva no mercado mundial e
pela elevação exponencial da produtividade da economia e do trabalho
dos brasileiros. É por ter levado realisticamente em conta esses
dados que a política reformista seguida desde o Plano Real vem
se demonstrando substancialmente correta e confirmada pelos fatos.
1. O EQUILÍBRIO
FISCAL
Parte essencial da batalha pela
mudança na forma de atuação do Estado é a busca do equilíbrio
fiscal. Uma das preocupações centrais do governo Fernando Henrique
Cardoso, a luta pelo equilíbrio fiscal vem sendo travada desde
o lançamento do Plano Real. É preciso reconhecer que muito se
avançou nessa questão, mas seus resultados ainda estão distantes
das metas que precisamos alcançar, pois o equilíbrio fiscal diz
respeito não apenas às contas da União, mas também aos estados
e municípios importantes. E como atinge muitos interesses e privilégios
corporativos, é tremenda a resistência dos que são afetados por
decisões governamentais que objetivem a melhor aplicação dos recursos
públicos.
Boa parte da dificuldade de equilibrar as contas públicas decorre
de dois traços perniciosos da cultura política brasileira. Um
é a velha tradição patrimonialista, segundo a qual os que
se aproximam do Poder Público devem gozar de favores especiais
e benesses particulares. Daí a resistência férrea de uma elite
de privilegiados que, através dos tempos, vem garantindo a profunda
desigualdade característica da sociedade brasileira. Outro é a
tradição populista, entendendo por esta toda tentativa
de responder às pressões – justas ou não – de certos setores populares
às custas dos cofres públicos, sem atentar para o fato de que
déficits fiscais permanentes provocam o recurso à inflação e ao
endividamento do Estado, facilitam a depressão econômica e a conseqüente
corrosão do poder aquisitivo da própria população que se diz defender.
Como corolário dessas culturas, dominou durante largo tempo na
opinião pública e em setores da administração, a imagem segundo
a qual o bom governante é o "fazedor de obras", pouco importa
se necessárias, prioritárias, razoáveis ou não; é o político "de
resultados", que para tanto não se preocupa com a lisura nos gastos,
não hesita em endividar o Estado e não tem escrúpulos em assumir
compromissos que serão pagos pelas futuras gestões.
Rompendo radicalmente com essas posturas, o governo Fernando Henrique
Cardoso e o PSDB assumiram com destemor a causa da boa gestão
dos órgãos públicos, tratando com austeridade os recursos fornecidos
pelo contribuinte. Disso se tornaram exemplos a conduta de governantes
do PSDB, como a de Mário Covas, que enfrentou corajosamente a
deplorável da situação do governo do Estado de São Paulo, legada
pelos que o antecederam; e a de Tasso Jereissatti, cujo êxito
extraordinário na promoção do desenvolvimento do Ceará tem sido
facilitado pela manutenção do equilíbrio das contas do Estado.
Se o patrimonialismo e o populismo ainda estão enraizados na política
brasileira, é preciso por outro lado acrescentar que o compromisso
com a austeridade fiscal é uma diretriz que tem hoje largo apoio
na opinião pública, pois a experiência sofrida com o descalabro
tem levado o eleitorado a exigir cada vez mais dos governantes
uma conduta responsável para com a coisa pública. O reconhecimento
da necessidade absoluta de introdução desse novo princípio ficou
expresso na aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei de Responsabilidade
Fiscal, proposta pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Essa
lei abre caminho para o combate mais eficaz a velhas mazelas,
que contribuem para a gestão incorreta dos recursos fornecidos
pelo contribuinte.
2. REDUZIR
A DEPENDÊNCIA EXTERNA
A estratégia de reformas estruturais
posta em prática pelo governo Fernando Henrique Cardoso vem, portanto,
desencadeando uma transformação profunda no país – uma revolução
democratizante, cujos efeitos nem sempre são percebidos mas que,
de fato, estão se tornando irreversíveis. Se essa política reformista
foi, no geral, acertada, é preciso reconhecer que a situação externa
e certos desequilíbrios internos favorecidos inadvertidamente
por certas decisões de política econômica, condicionaram e complicaram
a sua execução.
A economia mundial tem sido marcada por crises sucessivas em distintas
áreas do mundo, crises que se alastram e atingem notadamente países
emergentes como o nosso. O Brasil acabou sendo atingido por uma
onda de instabilidade que engolfou a Ásia e a Rússia, penalizou
a América Latina e abalou a Europa e os próprios Estados Unidos.
Para defender a economia e manter estável a nossa moeda, uma série
de decisões tiveram de ser tomadas. O longo período em que o real
se manteve sobrevalorizado, se serviu para fortalecer e manter
o poder aquisitivo do brasileiro, por outro lado obrigou o país
a pagar altas taxas de juros para evitar crises externas, situação
cujas seqüelas persistem até hoje. A desvalorização do real tornou-se
indispensável porque a política cambial anteriormente praticada
estava agravando o desequilíbrio das contas externas, impondo
uma aflitiva atração de capitais estrangeiros por meio da elevação
exagerada da taxa de juros. Esta, por sua vez, conduziu ao amortecimento
generalizado das atividades econômicas, à maior concentração de
rendas e à elevação descontrolada dos encargos com as dívidas
externa e interna. Estabeleceu-se, dessa maneira, um círculo vicioso,
que impedia a retomada do desenvolvimento e o atendimento de problemas
prementes da população.
A opção presidencial por um regime de flutuação cambial e a capacidade
de resistência demonstrada pela economia brasileira permitiram
vencer a tempestade. Por si só, este é um indicativo altamente
revelador de como a economia e a sociedade brasileiras se modernizaram
e se revitalizaram ao longo da implementação das reformas. A
experiência, no entanto, deixou como saldo uma lição: a necessidade
de reduzir o grau de dependência e de exposição da nossa economia
a fatores negativos do mercado financeiro internacional. Permanece
a obrigação de lutar pelo equilíbrio de nossas transações externas,
uma vez que não podemos nos apoiar em recursos financeiros voláteis
e especulativos. Em outras palavras, nossa moeda não pode ficar
à mercê dos azares dos mercados financeiros mundiais ou do custoso
socorro de agências internacionais, somente concedido se aceitarmos
obrigações nem sempre vantajosas.
Nossa política econômica e financeira deve ter como meta, portanto,
diminuir essa dependência. Mas esse objetivo não será alcançado
a curto prazo, pela mera proclamação de nossa vontade e com arroubos
demagógicos. Ele demanda um comportamento realista e pragmático,
e um conjunto de ações no sentido de:
- impulsionar o crescimento da economia
e elevar o nível de competitividade em todas as atividades produtivas;
- estimular as exportações, tornando mais
ágil a ação dos agências governamentais e apoiando os grupos
empresariais interessados em ampliar nossa presença em outros
mercados;
- aprofundar a inserção do país no mercado
mundial, ao mesmo tempo defendendo firmemente os interesses
nacionais no relacionamento com outras nações e nas negociações
dentro das organizações internacionais (ONU, FMI, OMC, BIRD,
Banco Mundial, etc.);
- reavaliar criteriosamente o conjunto
de transações financeiras com o mercado internacional, de modo
a impedir a continuação de ações ilícitas e abusivas que drenam
uma considerável parcela da riqueza nacional;
- reforçar a capacitação nacional no campo
da pesquisa e desenvolvimento e buscar alianças que fortaleçam
a posição do Brasil nas negociações sobre propriedade intelectual.
3. A DEFESA
DA ECONOMIA BRASILEIRA
A defesa da economia brasileira
não pode, portanto, ser equacionada nos mesmos termos do passado.
Décadas atrás houve consenso sobre a necessidade de impor restrições
aos capitais estrangeiros, sobre a fixação de barreiras tarifárias
e não tarifárias que tornavam quase proibitivas uma série de importações,
sobre o estabelecimento de monopólios estatais e de subsídios
a grupos nacionais – sobre a necessidade, enfim, da intervenção
direta do Estado em atividades produtivas. Esse modelo econômico
se esgotou e nos últimos anos tornou-se inevitável a fixação de
novas diretrizes, já que aquela velha orientação passou a ser
um obstáculo à modernização da economia.
O esgotamento desse modelo intervencionista não significa, de
maneira alguma, que ele deve ser substituído por um Estado absenteísta,
pela tese de que a sociedade e o Estado devam se curvar docilmente
diante da "mão invisível do mercado".
Desejamos que capitais estrangeiros participem do esforço nacional
para eliminar gargalos que bloqueiam o desenvolvimento, mas de
modo a robustecer a economia brasileira. Nesse sentido, o critério
de nosso relacionamento com os capitais externos deverá ser sempre
e em cada caso o interesse nacional, definido sem concessões
ao velho estatismo nacionalista, mas também sem nenhum açodamento
entreguista.
Um dos elementos mais significativos dessa postura de defesa dos
nossos interesses diz respeito ao fortalecimento das atividades
científicas e tecnológicas. O Brasil tem avançado nessa área nos
últimos anos. Ampliou os mecanismos de financiamento à pesquisa,
tem consolidado quantitativa e qualitativamente sua produção científica,
tem acumulado êxitos na criação de redes institucionais como a
que colocou a nossa genômica entre as principais do planeta. No
ainda chamado Terceiro Mundo, apenas a China, a Índia e o Brasil
dispõem de quadros intelectuais e de estruturas de pesquisas capazes
de produzir, e não apenas de consumir, conhecimento. Apesar disso,
temos ainda um longo caminho a percorrer, pois não há, nem na
sociedade, nem no mundo político brasileiro, uma consciência consolidada
do caráter estratégico dessas atividades, fundamentais para o
futuro do país num mundo como o nosso. Não dispomos também de
mecanismos suficientes e eficazes para a plena utilização do progresso
técnico para melhorar as condições de vida dos brasileiros.
O principal instrumento de defesa da nossa economia está, no entanto,
na construção de uma sociedade mais justa. E esta é indissociável
da luta pela retomada do desenvolvimento, para não apenas crescer,
mas crescer de outra maneira.
4. POLÍTICA
PARA A PEQUENA EMPRESA
Os pequenos negócios, especialmente
ao longo da última década, transformaram-se na grande base empregadora,
geradora e distribuidora de riquezas do país.
Quando falamos em pequenos negócios no Brasil, incluímos não apenas
as 4,5 milhões de micro e pequenas empresas que compõe 99% do
total de empresas formais do país, mas também os cerca de 13,5
milhões de pequenos negócios informais, ambos grandes responsáveis
pela geração de oportunidades de trabalho e renda para a maioria
dos brasileiros.
Considerando apenas as empresas do setor formal, as micro e pequenas
empresas são responsáveis por 53,6% do pessoal ocupado, 44,6%
da massa salarial e 28,2% da receita/valor bruto da produção industrial.
No meio rural também é grande a importância da pequena produção
ou da chamada agricultura familiar.
A importância desse segmento para a economia do país não se resume
unicamente a sua relevância estatística na geração de empregos
e riquezas. É certo que por si só já lhe concederia um lugar de
destaque em qualquer estratégia de desenvolvimento.
A preocupação central com o combate às desigualdades sociais e
o desemprego, corroboram para destacar as micro e pequenas empresas
como centrais a qualquer estratégia de geração de oportunidades
de renda e postos de trabalho, dois dos principais desafios enfrentados
e ainda no porvir.
Por unir o artesanal ao high tech, a produção primária aos produtos
do entretenimento, laser, cultura, pequenas agroindústrias, em
escalas variadas de produção, as pequenas empresas são maioria
em todas as regiões do país. E isso é fundamental para a construção
de um tecido econômico e social mais justo nas pequenas e médias
cidades brasileiras. Os últimos censos demográficos robustecem
a tese de que é fortalecendo essa rede de pequenas e médias cidades
que evitaremos a migração em massa para os já congestionados grandes
centros urbanos.
Nesse sentido, não podemos esquecer a importância das micro e
pequenas empresas nas estratégias de integração e de superação
das desigualdades regionais. Quanto mais prósperas elas forem
onde estão e mais capazes de integrar os que chegam ao mercado
de trabalho a cada ano, maior dinamismo viverão essas regiões
do país.
Por sua importância estratégica para o desenvolvimento econômico
do país, as micro e pequenas vem recebendo apoio das políticas
públicas, onde muitos dos avanços foram conquista da social-democracia
brasileira e do governo Fernando Henrique. A regulamentação do
Estatuto da Micro e Pequena Empresa, por exemplo, a instalação
de um Fórum específico para discussão de seus problemas envolvendo
órgãos do setor público, instituições de fomento e as representações
desse segmento produtivo, a instalação do FÁCIL em diversos estados,
desburocratizando, dando celeridade e reduzindo custos dos processos
de abertura e regularização de empresas, a simplificação tributária
que decorre do SIMPLES federal, secundado por instrumentos semelhantes
nos estados, são avanços consideráveis no tratamento diferenciado
a micro e pequena empresa, como prevê a Constituição Federal.
Esses avanços permitiram a regularização de milhões de empregos,
a criação de milhares de micro e pequenas empresas que trouxeram
para o processo produtivo desempregados e sem renda.
Em que pese esses avanços, ainda são grandes os desafios e variadas
as possibilidades de ação voltadas para esse segmento.
O fortalecimento das micro e pequenas empresas é um pilar do fortalecimento
da economia nacional numa perspectiva social-democrática, e como
tal será uma prioridade no programa econômico do PSDB.
5. A INTEGRAÇÃO
DO PAÍS
O objetivo fundamental do PSDB é
o aprofundamento da democracia, a superação dos graves problemas
sociais que ainda nos afligem: a eliminação da miséria, a diminuição
da pobreza, a redução das profundas desigualdades regionais e
sociais existentes entre os brasileiros. A realização dessa
meta e o fortalecimento nacional e internacional do Brasil não
serão possíveis sem que a imensa maioria da população esteja unida
e disposta a criar uma nação próspera. Com essa visão, o PSDB
postula a elaboração de uma estratégia para a integração social,
física e regional do país.
A história brasileira apresenta períodos de maior ou menor centralização
da estrutura de governo, de maior ou menor autonomia das unidades
da federação em termos de administração pública. A Constituição
Federal de 1988 inaugurou a fase de maior descentralização que
o país conheceu, dando uma grande margem de atuação para os governos
estaduais elaborarem suas políticas econômicas. Tal orientação
democratizante – em oposição ao centralismo do período militar
– trouxe não obstante desdobramentos negativos não previstos.
O maior deles é a forte e por vezes predatória concorrência entre
os estados pela atração de investimentos privados.
A nova orientação descentralizante teve de operar numa estrutura
territorial marcada por profundas desigualdades quanto à distribuição
de riqueza e de equipamentos produtivos. Some-se a isso uma cultura
político-administrativa consolidada num ambiente autoritário,
com pouca tradição no uso de mecanismos participativos e de controle
social dos atos governamentais. Um quadro de grandes demandas
sociais acumuladas e alta concentração geográfica dos grandes
investimentos completa o cenário do que vem sendo chamado de guerra
fiscal entre as unidades da federação.
Isenções tributárias e favorecimentos creditícios irracionais
tornaram essa competição para atrair indústrias uma atividade
lesiva a toda a estrutura produtiva nacional. Dadas as vantagens
leoninas concedidas aos agentes privados, a guerra fiscal beneficiou
algumas áreas, mas no substancial colocou em risco setores já
estabelecidos (com repercussões significativas na taxa de emprego)
e levou a uma situação na qual o poder público, em todos os níveis,
pouco se beneficia com os novos investimentos. De um ponto de
vista nacional, tal quadro de entropia demanda que se rediscuta
o pacto federativo no país, tornando esse tema um dos mais candentes
na agenda da reforma do Estado.
As iniciativas voltadas para a expansão da infra-estrutura interligando
as diversas regiões desempenharam um papel crucial na formação
de nosso país. Apesar disso, somos ainda uma nação em que parcela
gigantesca do território está pouco conectada à vida nacional,
ou essa conexão se dá de forma esgarçada e precária. Além disso,
o lado excludente do processo de globalização em curso torna mais
inadiável a tarefa de completar a integração de nosso território,
realizando empreendimentos para a recuperação, montagem e ampliação
de um sistema de transportes, comunicações e energia que atenda
aos mais distantes rincões do país.
Por isso mesmo, consideramos de suma importância a concepção dos
eixos nacionais de integração e desenvolvimento, que norteia
o programa de investimento lançado pelo presidente Fernando Henrique
Cardoso nos Progamas Brasil em Ação e Avança Brasil. Esse
programa, que até agora não suscitou o amplo debate que merecem,
parte da exigência histórica de finalizar a integração de modo
a reduzir as disparidades entre as regiões. Sua execução terá
profundas conseqüências, definindo qual será o mapa econômico,
social e populacional do Brasil nas próximas décadas. Essa circunstância
deveria ser suficiente para tornar urgente o debate público de
suas propostas, de maneira a garantir que seu planejamento e execução
levem em conta as prioridades do mercado interno, notadamente
as que envolvem o abastecimento dos grandes centros populacionais;
e contribuam decisivamente para a integração econômica e política
com nossos vizinhos da América do Sul, uma vez que a solução dos
problemas não poderá ser encontrada fora da cooperação com essas
nações, inclusive com aquelas que ainda não são membros do Mercosul.
A correção dos desequilíbrios regionais pode exigir também a adoção
de medidas de caráter político-administrativo, tais como a criação
de novos estados.
A proposta, apresentada aqui para debate, pode ser justificada
pela necessidade de promover ocupação mais planejada e menos predatória
de determinadas áreas, além de tornar operacional a atuação do
Poder Público diante da vastidão territorial e favorecer o controle
das regiões fronteiriças da Amazônia brasileira, cada vez mais
necessário diante da ameaça representada pelo narcotráfico. Apoia-se
também na experiência exitosa da subdivisão dos antigos estados
do Mato Grosso e Goiás, cujos custos foram infinitamente menores
do que os benefícios que produziu.
Uma inovação institucional como essa envolve, é claro, questões
de grande complexidade, a principal das quais é a possibilidade
de agravar a desproporcionalidade já existente na Câmara Federal,
a sobre-representação política dos estados menos habitados em
detrimento dos mais populosos. Consideramos, no entanto, que o
aumento do desequilíbrio, que a medida acarretaria num primeiro
momento, poderia ser minimizado pela adoção, pelo Congresso, de
regras temporárias de representação para esses estados. A médio
e a longo prazo, porém, o redirecionamento dos fluxos imigratórios,
que aquela inovação induziria, não apenas contribuiria para diminuir
a pressão sobre as grandes cidades, como favoreceria, pelo adensamento
populacional dessas regiões, uma representação política mais equilibrada
do eleitorado nacional.
6. A POLÍTICA
EXTERNA
Como se situar diante de um quadro
internacional marcado pelo fim da bipolaridade dos tempos da guerra
fria? No plano político, é um dado inegável a consolidação da
liderança dos Estados Unidos, sua pujante força econômica e sua
incontrastável supremacia militar. Todavia, a presença de outros
países poderosos do ponto de vista econômico limita a hegemonia
global dos Estados Unidos, situação que torna inevitáveis conflitos
e contradições entre os que detém as rédeas do poder mundial.
Contradições a que devemos estar atentos porque ampliam as margens
para que certos países, entre os quais o nosso, possam negociar,
estabelecer alianças as mais diversificadas e defender melhor
seus interesses.
Mais do que no passado, somos hoje obrigados a dar maior atenção
ao relacionamento internacional do Brasil, entre outras coisas
porque estamos sendo chamados a desempenhar um papel mais ativo
no cenário mundial. A política externa que vem sendo perfilada
pelo governo Fernando Henrique Cardoso tem por premissa básica
a avaliação de que a globalização é inexorável, mas que há limites
para a ação do mercado. Como já vimos, inegáveis vantagens decorrem
da globalização, ainda que sejam nítidos seus malefícios, porque
ela se desenrola numa ordem internacional ditada pelos países
hegemônicos. No cenário global continua imperando a lei do mais
forte. Apesar disso, países como o nosso têm chances de contra-arrestar
os efeitos mais negativos da globalização – o crescimento da desigualdade,
o aprofundamento da exclusão, o enrijecimento da concentração
de renda. Em outras palavras, não é apenas necessário mas também
possível lutar pelo adoção de controle dos fluxos de capitais
internacionais, de forma a refrear a especulação no mercado mundial
e dificultar a eclosão das crises financeiras catastróficas que
se abatem sobre a economia desse ou daquele país.
O próprio desenvolvimento fantástico das telecomunicações permite,
por outro lado, um amplo diálogo entre as sociedades, por cima
das fronteiras, circunstância que favorece a proliferação de teses
e opiniões que correspondam aos valores universais da civilização
– a democracia, os direitos humanos, a preservação do meio ambiente
e a luta contra as desigualdades sociais – e a concretização de
alianças com forças políticas democráticas em vários países. Na
medida em que atuarmos de forma permanente e intensa nos círculos
que influenciam o pensamento mundial e nossa política externa
for cada vez mais baseada em teses que exprimam aqueles valores,
mais fácil será a obtenção de apoios na opinião pública internacional
para nossas posições.
Uma política externa que corresponda aos interesses e às aspirações
dos brasileiros adotará inevitavelmente como princípios básicos
a luta pela paz e a colaboração entre as nações; pela adoção de
controle e mecanismos de preservação do meio ambiente; o respeito
à soberania popular e aos direitos das nacionalidades e grupos
étnicos; o zelo pelas tradições e pelas culturas nacionais; a
cooperação com os vizinhos do Cone Sul e com toda a América Latina;
o apoio aos povos da África que, com seu sangue e cultura, deram
inestimável contribuição à construção do Brasil.
Em conseqüência, não nos alinharemos automaticamente a nenhum
país, a nenhum bloco econômico ou militar, pois nossa divisa é
o respeito à soberania e aos interesses de cada nação. Envidaremos
esforços para fortalecer a Organização das Nações Unidas, inclusive
pela reformulação da composição de seu Conselho de Segurança,
adequando-o à realidade internacional de nossos dias. Repudiamos
decisões que, marginalizando a ONU, têm como finalidade submeter
nações e povos à vontade de países mais poderosos, como se viu
no doloroso conflito de Kosovo.
Fazemos parte e somos solidários às lutas de muitos países pelo
seu desenvolvimento e contra procedimentos injustos nas relações
econômicas, financeiras e comerciais no mundo. Lutaremos dentro
das organizações internacionais, especialmente o Fundo Monetário
Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio,
para que deixem de ser instrumentos das nações privilegiadas e
grupos econômicos multinacionais.
Entendemos que o projeto de criação de uma zona de livre comércio
nas Américas (ALCA), tal como está atualmente configurado, parece
beneficiar tão somente as grandes empresas norte-americanas. Como
o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro em seu discurso
na Cúpula das Américas em abril último, a ALCA só se tornará uma
opção relevante para o Brasil se eliminar efetivamente as barreiras
protecionistas e subsídios que hoje limitam a expansão das nossas
exportações.
Apesar das dificuldades momentâneas, persistiremos no caminho
do fortalecimento e da ampliação do Mercosul (pela adesão de outros
países da América do Sul), trabalhando pelo estabelecimento de
normas e processos que ultrapassem os limites de uma união aduaneira
e evoluam no sentido da criação de instituições econômicas e políticas
supranacionais. Da mesma forma, incentivaremos o prosseguimento
das negociações do Mercosul com a União Européia com vistas à
criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos regionais.
Apoiamos decididamente as gestões desenvolvidas pelo Brasil a
favor de mecanismos de cooperação eficazes e eqüitativos para
enfrentar os graves problemas decorrentes da mudança do clima
no planeta. Por isso mesmo, encaramos com preocupação os entraves
postos pelos Estados Unidos à entrada em vigor do Protocolo de
Quioto, frustrando um esforço de anos de negociação internacional
em torno desse tema.
Consideramos que o Brasil deve propugnar a inclusão de dois novos
pontos na agenda internacional: a anulação de barreiras que
impedem e dificultam a livre movimentação da força de trabalho
entre os países e a adoção de medidas efetivas de assistência
às populações que emigram em decorrência de genocídios e conflitos
étnicos ou políticos, ou em busca de melhores condições de vida.
Esses dois pontos, que se completam, indicam passos possíveis
e desejáveis no sentido do estabelecimento de uma nova ordem internacional
que não apenas consagre as desigualdades, mas enfrente os problemas
aflitivos da civilização nesse limiar de um novo milênio.
III. OPÇÃO
RADICAL PELA DEMOCRACIA POLÍTICA
Do ponto de vista formal, o Brasil
é hoje uma das mais amplas e avançadas democracias do mundo. Dispomos
igualmente de uma equação mais equilibrada do que no passado entre
os três poderes. Apesar da não aprovação do parlamentarismo, avançamos
decididamente no terreno da parlamentarização do poder, isto é,
na direção da limitação das velhas e arraigadas prerrogativas
autoritárias do Executivo, do fortalecimento do Congresso e da
solidificação do papel constitucional do Judiciário. Foi-se o
tempo em que ameaças de golpe ou de ruptura institucional faziam
parte dos costumes políticos brasileiros. Os processos eleitorais
se incorporaram à rotina da população e nenhum grupo político
de expressão está à margem ou contesta as eleições como a forma
mais legítima de disputa pelo poder. Reina no país ampla e inequívoca
liberdade de organização e de expressão de pensamento. Cada vez
mais a população aprende a usar os novos instrumentos legais que
a democracia lhe pôs nas mãos, a demandar por seus direitos civis
e políticos. Contra a tradição autoritária e patrimonialista,
que resiste, são muitos os grupos sociais que cada vez mais assumem
a democracia não apenas como postulado ideológico, mas também
como norma da vida cotidiana.
Não se pode negar, entretanto, que persistem graves obstáculos,
seja ao pleno exercício dos direitos civis, seja à plena democratização
do sistema político brasileiro. Alguns deles são sociais e históricos,
outros decorrem do modo como certas instituições foram se organizando
ao longo da transição à democracia. No caso das instituições políticas,
basta observar a dificuldade, senão a incapacidade, do sistema
político de adequar-se ao intenso processo de democratização em
curso na sociedade. Dificuldade que pode sanada com a adoção de
medidas voltadas para combater eficazmente a corrupção, aumentar
o grau de auto-organização da população e assegurar a influência
direta e permanente do eleitorado sobre os seus representantes.
Há no país, talvez oriunda do longo período de resistência e contestação
à ditadura, uma cultura oposicionista que não se conforma com
os resultados eleitorais e insiste em inviabilizar as maiorias
e os governos deles oriundos. O exercício democrático reclama
respeito às regras e aceitação da manifestação do eleitorado para
cada mandato.
Uma certa condescendência de setores da sociedade para com ações
ilegais, paramilitares e violentas por grupos organizados é risco
para a democracia e identifica uma vertente fascista, mesmo que
travestida de revolucionária ou transformadora.
Refinadas formas de manipulação sobre movimentos sociais e organismos
de participação dos cidadãos, posturas de controle hegemônico
e de rígido alinhamento partidário, denunciam outra vertente de
distorção e risco para o saudável aprofundamento da democracia
no Brasil.
O PSDB defende a democracia política como ponto fundamental, não
abre mão de seus pressupostos, submete-se aos resultados favoráveis
ou desfavoráveis das eleições e não quer ver os instrumentos participativos
e as organizações sociais submetidos a manipulações ou ao controle
hegemônico de partidos.
1. O SISTEMA
POLÍTICO-ELEITORAL
Apesar de todos os avanços obtidos,
o arcaísmo continua impresso em letra de fôrma no sistema político-eleitoral
brasileiro. Ele não só funciona mal como representa desigualmente
a população. Apesar de adotarmos o voto proporcional, cujo objetivo
é tornar o Poder Legislativo um espelho da diversidade da população
realmente existente, teimamos em dar menor representação do
que a devida aos estados mais populosos e a beneficiar o interior
em detrimento das capitais, subrepresentando assim, brutalmente,
a maioria da população urbana do país.
Por outro lado, o modo pelo qual praticamos a eleição proporcional
não favorece a organização política dos grupos sociais em partidos
fortes e consistentes, nem a identificação permanente do eleitor
com o seu partido. Em primeiro lugar, a permissão de coligações
em eleições proporcionais contribui para dar alento a agremiações
que não se sustentariam com seus próprios votos. Distorcendo o
sentido da manifestação do eleitor, o expediente eleitoral premia
legendas de aluguel e minorias insignificantes, que acabam tendo
um papel político maior do que o seu peso autorizaria.
Outra distorção está na própria existência de listas abertas.
Nas eleições legislativas, os partidos apresentam aos eleitores
uma lista muito grande e não hierarquizada de candidatos. Isto
favorece a captação de votos nos mais diferentes nichos eleitorais,
mas afrouxa a coesão partidária, minimiza a importância do programa
e torna secundária a compatibilidade das idéias do candidato com
a orientação do partido. Do lado do eleitor, isso significa que
ele pode estar ajudando a eleger candidatos que não são absolutamente
os de sua preferência, distorção ampliada pelo mecanismo dos quocientes
eleitorais.
Nessas circunstâncias, os candidatos são obrigados a disputar
seus mandatos parlamentares contra aqueles que ocupam a mesma
faixa eleitoral, contra os que lhes são política e ideologicamente
mais próximos; a disputa, assim, é por vezes mais intensa entre
candidatos do mesmo partido do que entre candidatos de partidos
adversários. Dificultando a identificação do eleitor com o "seu"
partido, esse sistema "distritaliza" o voto no pior sentido, favorecendo
os que controlam currais eleitorais e os que representam corporações
(sindicais, religiosas, profissionais) em detrimento daqueles
que expressam valores, concepções e interesses mais gerais presentes
no eleitorado. Não apenas torna o parlamentar, individualmente,
o verdadeiro "dono" do mandato, como diminui sistematicamente
o papel político do partido, que numa democracia representativa
é ou deve ser o organizador da população, o verdadeiro representante,
o mediador entre o eleitorado organizado e o Estado. Contribui
assim para a baixa densidade ideológica, baixa representatividade
e baixa inteligibilidade, que caracterizam os sistemas eleitoral
e partidário brasileiros.
2. AS REFORMAS
POLÍTICAS
Entre as alterações necessárias
no sistema partidário brasileiro, algumas são internas ao funcionamento
dos partidos; dependem destes, mais do que da lei, para serem
implementadas, como a adoção de mecanismos consistentes que garantam
a fidelidade partidária. Entre aquelas que afetam o sistema em
seu conjunto, uma primeira série deve estar voltada para desfechar
um golpe certeiro na infra-estrutura da corrupção eleitoral. Este
é um problema endêmico nos sistemas políticos de todo o mundo,
que no Brasil de hoje atinge níveis preocupantes, pela ausência
de regras claras que limitem a ação dos grupos econômicos e tornem
transparentes os mecanismos de financiamento das campanhas eleitorais.
Cada vez mais se impõe a necessidade de estabelecer tetos às doações
de pessoas físicas e, sobretudo, de adotar o financiamento público
dos partidos e das campanhas eleitorais.
A adoção do sistema proporcional distritalizado seria um
enorme avanço nesse sentido. Nesse sistema, os partidos apresentam
uma lista já hierarquizada de candidatos e metade das cadeiras
parlamentares seriam preenchidas por eleições realizadas por distritos
formalmente definidos. Tal mudança significaria uma profunda mexida
nos esquemas e costumes estabelecidos, forçando a experimentação
e a busca por novos equilíbrios que, por si sós, seriam imensamente
saudáveis para a vida política brasileira. Além disso, a adoção
de um sistema proporcional desse tipo (distritalizado, do tipo
alemão) aumentaria a competição entre os partidos e a identificação
do eleitor tanto com seu representante como com o seu partido.
Contribuiria também para reduzir uma das mais graves fontes de
corrupção do sistema político, qual seja, o custo proibitivo das
campanhas eleitorais. Com o novo desenho dos distritos, reforçaria
a tendência de os municípios do interior se associarem, criando
condições, no plano político, para o enfrentamento comum e planejado
dos graves problemas dos conglomerados urbanos. Aumentaria, além
disso, a percentagem dos eleitos com os votos das capitais, cuja
representação é hoje claramente subestimada, e incentivaria enormemente
a participação popular. Mas a principal vantagem desse tipo de
sistema seria, sem dúvida, que ele corrigiria as distorções hoje
existentes na proporcionalidade eleitoral, trazendo-nos para mais
perto da realização do ideal democrático: um homem, um voto.
A preferência pelo sistema proporcional misto não é uma opção
dogmática. Entendendo que reformas dessa profundidade nas regras
do jogo democrático dependem de um amplo consenso, o PSDB estará
aberto à discussão de quaisquer alternativas de reforma eleitoral
que possam representar avanços no sentido de combater a corrupção,
limitar a influência do poder econômico, fortalecer os partidos
e tornar mais firme e transparente a relação entre representantes
e representados.
3. O PARLAMENTARISMO
Para favorecer o enraizamento dos
partidos e aumentar o poder da sociedade de controlar os seus
representantes, são necessárias alterações no sistema eleitoral
e na forma de governo. A mudança que pode e deve ser vista
como a síntese de todas as propostas de reformas democratizadoras
do sistema político é a adoção do parlamentarismo. Ao separar
as funções de chefe de Estado e chefe de governo, e fazer da chefia
do governo a expressão direta da maioria parlamentar, o parlamentarismo
significaria, imediatamente, a responsabilização do Poder Legislativo,
que toda a tradição política ocidental reconhece como, por definição,
a principal expressão do poder popular numa democracia representativa.
Ao delegar ao partido ou à coligação majoritária o direito de
montar o Ministério, o parlamentarismo reforça o papel dos partidos
e evita um dos principais problemas do presidencialismo: reduz
o fosso atualmente existente entre as alianças políticas feitas
para ganhar eleição e os acordos que se fazem entre os grupos
que efetivamente governarão. Ao fazer com que, ao contrário do
presidencialismo, a vontade do eleitorado se traduza imediatamente
na formação do governo, o parlamentarismo contribui para debelar
uma das pragas dos sistemas burocráticos modernos, qual seja,
a existência de "poderes ocultos", de grupos articulados, grupos
de interesse e anéis burocráticos que decidem políticas sem que
tenham sido democraticamente autorizados para tal.
Ao incrementar significativamente a responsabilidade política
dos governantes (e da oposição), o parlamentarismo se torna uma
garantia contra a corrupção e o populismo fiscal, pois limita
consideravelmente a margem de manobra dos que se beneficiam ou
implementam políticas sem a menor preocupação com a racionalidade
e com as necessidades reais do povo e do Estado. Ao transformar
os partidos no principal agente do debate e da tomada de decisões,
trabalha, ao mesmo tempo, no sentido do adensamento da Federação
e da verdadeira nacionalização da política brasileira, pois consolida
a diversidade das unidades federadas e faz do Poder Legislativo
a arena onde as legítimas, diferentes e contraditórias demandas
da sociedade e dos estados podem ser equacionadas e integradas.
Ao propor a reabertura de discussão sobre o sistema de governo
e a realização de um novo plebiscito, o PSDB não está preocupado
com vantagens conjunturais, mas defende uma posição de princípio.
Não apenas nasceu com essa bandeira como se compromete a continuar
lutando para convencer a maioria do eleitorado de que o parlamentarismo
é o melhor caminho para enraizar a democracia em nossos hábitos
e costumes. Ao insistir nessa posição, avaliamos, a nosso ver
acuradamente, que o vetor democratizante da vida brasileira leva
à progressiva parlamentarização do poder político, conduz à subordinação
cada vez maior da elite política e do sistema político à população
e ao eleitor, aumenta sobremaneira a capacidade da sociedade politicamente
organizada influir e controlar o seu governo.
Fiel à proposta do parlamentarismo, o PSDB entende que ele deve
ser implantado com apoio inequívoco da sociedade brasileira. Enquanto
um plebiscito não mudar o sistema de governo, é necessário aperfeiçoar
o presidencialismo vigente, de forma a garantir a governabilidade
e a democracia, dando condições do Estado ser eficiente. Nas atuais
condições de sistema político, um instituto como o das medidas
provisórias é imprescindível para evitar a paralisação da ação
estatal e a vacância legal, que comprometem a governabilidade
ou a pronta resposta a problemas sociais e econômicos. Encontrar
o equilíbrio, através de contrapesos e limites, no uso deste tipo
de instituto e nas relações entre os Poderes é tarefa ainda inconclusa
em nosso processo democrático.
4. DEMOCRACIA
PARTICIPATIVA
A democratização da sociedade brasileira
avança pela radicalização da democracia política e pela sua articulação
com mecanismos da democracia participativa. Na verdade, uma das
grandes novidades da política brasileira de hoje é a quantidade
e a qualidade de novos atores, sujeitos sociais, movimentos políticos,
organizações não-governamentais que se espalham por todo o tecido
social. Essa explosão de associativismo popular – que vem desde
a resistência contra o regime militar, mas ocorreu basicamente
sob a democracia – desmente todos aqueles que sempre insistiram
na fraqueza da sociedade civil brasileira e no caráter amorfo
dos grupos sociais para melhor justificar sua defesa do Estado
autoritário. Ao contrário disso, o que se verifica é que o próprio
avanço da democracia política vem propiciando cada vez mais aos
cidadãos a oportunidade de se auto-organizar, debater, reivindicar,
pressionar e fazer valer os seus direitos em todas as esferas
da vida pública. Acresce essa mudança de mentalidade o fato de
que a população se manifesta cada vez mais predisposta a utilizar
mecanismos de democracia direta consagrados na Constituição, como
a consulta, a proposição, o plebiscito e o referendo. Por meio
de conselhos, discussões de orçamentos e outras formas de ação
popular, temos dados passos significativos no sentido da montagem,
controle e definição de prioridades para as políticas públicas.
O governo do presidente Fernando Henrique empreendeu a maior descentralização
sob controle social das políticas públicas que a história republicana
conhece. Ele cumpre o ideário da Constituição e das avançadas
leis que regulam áreas como saúde, educação, assistência social,
agricultura familiar, capacitação profissional e outras, todas
elas submetidas a um processo regular de descentralização ou de
municipalização sob controle social de conselhos ou comissões.
Este processo necessita de permanente revigoramento, com a correção
das distorções que venham a ocorrer num país tão grande e tão
diversificado. Casos de manipulação dos conselhos por agentes
do poder local ou de qualquer partido político, reclamam atenção
e regras de prevenção.
O "terceiro setor" mostra-se cada vez mais robusto no Brasil e
as organizações não governamentais, as iniciativas comunitárias
e as experiências de voluntariado representam possibilidades concretas
de complementação das políticas públicas e de solução de problemas,
em especial, nas áreas sociais.
Fiel às suas origens, sintonizado com esse processo libertador
e sob inspiração dos princípios de descentralização e de participação,
o PSDB busca incessantemente novos avanços que radicalizem a democracia,
tornando cada vez mais dinâmica a necessária articulação entre
representação e participação, entre democracia de base e democracia
representativa.
5. COMBATE
À CORRUPÇÃO
Esse quadro de propostas não estaria
completo se não enfrentássemos uma das questões mais candentes
de nossa vida política atual: a corrupção, seja ela política ou
administrativa. Causam revolta e indignação as sucessivas revelações
de práticas criminosas nas administrações públicas federal, estadual
e municipal, e nos três ramos de poder da República – o Executivo,
o Legislativo e o Judiciário. A corrupção prejudica a boa gestão
dos recursos públicos, favorece pessoas e grupos privados à expensa
do bem comum, viola normas éticas estabelecidas e desqualifica
o exercício da política.
Pela dimensão que o problema atingiu entre nós, pelo fato de envolver
personalidades na vida nacional e ganhar enorme relevo na opinião
pública, a corrupção deixou de ser um amontoado de episódios menores
da crônica policial, para se tornar uma questão política de suma
importância para a Nação. Além dos seus graves efeitos econômicos,
ela gera nefastas conseqüências políticas porque oferece justificativas
aos que desacreditam no Brasil, espalham a descrença nas instituições
políticas e propagam a inutilidade da participação do cidadão
na vida pública. Numa saudável reação ao descalabro, alastra-se
na sociedade e no mundo político responsável o entendimento do
risco que estão correndo as instituições democráticas, tão arduamente
construídas nos últimos quinze anos. Nessas circunstâncias, ou
se põe um freio na corrupção ou as instituições democráticas mergulharão
no descrédito.
A corrupção na administração pública é um problema endêmico nos
sistemas políticos de todo o mundo. Sua ocorrência no Brasil não
é um dado recente. Remonta a uma longa tradição na vida nacional,
caracterizada pelo uso dos bens públicos pelo interesse privado
de grupos e pessoas com acesso às esferas do poder. O fato novo
é o afloramento de múltiplas denúncias de práticas ilícitas de
administradores e autoridades. De forma paradoxal, mas verdadeira,
esse caudal de denúncias decorre do clima de liberdade propiciado
pelo avanço da democracia, que vem tornando a opinião pública
cada vez mais vigilante e incisiva. Concorrem para a luta contra
a corrupção o fato de a Constituição de 1988 haver atribuído ao
Ministério Público a missão de fiscalizar o desempenho dos órgãos
públicos, o esforço governamental pela modernização, informatização
e saneamento da gestão das agências estatais e, sobretudo, a cada
vez menor tolerância da população para com aqueles sobre os quais
pesam graves suspeitas de mau uso do dinheiro público.
Para ser eficiente, essa luta envolve uma série de providências,
que vão desde a modificação de determinadas leis até a mudança
da cultura judiciária brasileira, passando pela introdução de
mecanismos de controle da administração. O PSDB reconhece e defende
o esforço governamental pelo saneamento da gestão estatal. Considera,
além disso, que uma série de iniciativas já testadas em âmbitos
limitados, podem e devem ser generalizados para toda a Administração
Pública, como a instituição de ouvidorias, de corregedorias e
de conselhos fiscalizadores que contem com a participação, não
meramente formal, de representantes de organizações da sociedade
civil.
Tudo isso seria insuficiente sem uma reforma radical e profunda
no sistema político e na cultura política brasileira. Partido
da ética, da democracia, das administrações bem sucedidas e das
mudanças, o PSDB considera a luta contra a corrupção um elemento
essencial da luta pela consolidação da democracia no Brasil.
Se ela demanda um comportamento intransigente contra os corruptos
e os corruptores em todos os ramos do Poder Público, nos partidos
políticos e na sociedade em geral, não pode entretanto ser travada
ao arrepio das leis ou movida apenas por interesses eleitoreiros.
Trata-se, na verdade, de um combate diuturno e sistemático pelo
enraizamento do Estado Democrático de Direito e dos valores republicanos
na vida pública brasileira.
6. MEIOS ELETRÔNICOS:
A PARTICIPAÇÃO EFICIENTE
As tecnologias da informação oferecem
ao cidadão possibilidades inovadoras de participação. O Governo
Eletrônico dá acesso instantâneo a informações que lhe permitem
controlar a ação estatal e encaminhar os seus interesses. O fornecimento
gratuito ou a baixo custo de pontos de acesso às redes de computadores
permite massificar as facilidades do Governo Eletrônico, disponibilizando-as
na praça, na escola, no posto de saúde, na associação de moradores
e numa parcela crescente dos domicílios. O PSDB apoia e incentiva
os passos que estão sendo dados na direção do acesso dos estudantes
e dos cidadãos às redes informatizadas e para cada vez mais oferecer
informações organizadas, possibilidades e alternativas.
A democracia será cada vez mais participativa se os meios informatizados
forem disponibilizados para toda a população. O governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso tomou importantes iniciativas nessa
direção, que devem ser continuadas e aprofundadas.
IV. PLATAFORMA
PARA UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
As grandes cidades condensam alguns
dos maiores desafios sociais brasileiros. Na verdade, elas pagam
o preço pela realização deformada do sonho das gerações passadas
– o de transformar o país agrário e atrasado da primeira metade
do século numa potência urbana e industrial, similar aos países
mais desenvolvidos do mundo. A urbanização e industrialização
aceleradas levaram quase 80% da população a se concentrar nas
grandes e médias cidades e transformaram profundamente os estilos,
padrões morais e condições de vida da maioria do povo brasileiro.
Tudo isso criou o caldo de cultura que permitiu a emergência de
novos atores sociais, políticos e econômicos, agentes que realizaram
a revolução socialmente democratizante das últimas décadas. Os
ganhos foram tanto materiais como espirituais. Estão nas cidades
as melhores expressões da cultura, da política e da economia brasileira.
A vida urbana produziu um mercado dinâmico, exigente, sintonizado
com as tendências contemporâneas, impaciente com o subdesenvolvimento
e com a ambígua herança do Brasil agrário e patrimonial.
Sob outros aspectos, entretanto, a transformação do sonho em realidade
mais nos horroriza do que nos orgulha. Resultado de um século
de autoritarismo e desigualdade social, as metrópoles brasileiras
acabaram se tornando monumentos à exclusão, passarelas onde
desfilam diariamente o sofrimento das populações mais pobres;
nelas impera a violência e proliferam as sub-habitações. Seu tecido
urbano está dilacerado pelo caos nos transportes, pela precariedade
do saneamento básico, pela poluição do ar, das águas e da paisagem.
São obrigadas a conviver com a falta de previdência das autoridades
municipais, com o irracionalismo das enchentes e os soterramentos
nos morros. Toleram o vandalismo de grupos de jovens e a exploração
das crianças. E vêem se avolumar os tráficos de armas e de drogas,
pragas modernas que têm se erigido em indústrias prósperas, que
tanto multiplicam a fortuna dos endinheirados como se convertem
em perigosos, porém procurados caminhos de ascensão econômica
para adolescentes e adultos da periferia das metrópoles.
A dramaticidade dessa situação torna urgente a formulação de políticas
voltadas para a recuperação dos grandes centros urbanos, tarefa
tão decisiva quanto a elaboração de uma estratégia de desenvolvimento
sustentado e de um programa de reforma do Estado. Para um partido
como o nosso, nascido e sustentado pelas populações urbanas, de
onde tirou os seus melhores quadros, esse compromisso com o resgate
das cidades se inscreve no próprio âmago de sua estratégia social.
Na tradição brasileira, a idéia de "planejamento urbano" evoca
quase sempre o intervencionismo autoritário do período militar.
Por isso mesmo, uma formulação democrática exige ousadia e pede
novos paradigmas. O planejamento democrático do desenvolvimento
urbano deve ser entendido como um conjunto de ações consensualmente
estabelecidas, voltadas para a produção da infra-estrutura necessária
à expansão dos setores econômicos avançados, de políticas públicas
preocupadas com a preservação do patrimônio cultural e com a elevação
da qualidade de vida. Por último, mas decisivo lugar, ele deve
ser entendido como um conjunto de inovações político-institucionais
que tornem governáveis as metrópoles, submeta as instituições
políticas municipais ao controle da população e possibilitem aos
setores organizados da população influir diretamente nas decisões
que afetem a vida de todos.
1. ECONOMIA
URBANA
No plano econômico, o projeto de
desenvolvimento assumido pelo PSDB deve estimular nas metrópoles
a criação de pólos de prestação de serviços, tendo por objetivo
caracterizá-las como centros do terciário avançado, como eixos
de vanguarda da economia do século XXI e, em alguns casos, como
"cidades globais". Tal projeto não poderá desconsiderar a base
industrial e econômica já existente nessas cidades, mas terá que
compatibilizá-la com as novas vocações associadas ao terciário
e ao terciário avançado. A sobrevivência física e econômica das
grandes cidades, de qualquer forma, não prescindirá da preservação,
em bases tecnologicamente renovadas, de uma parte dos parques
industriais que foram tanto a razão de sua pujança no passado
como a origem de seus pesadelos presentes. Entre outras coisas,
trata-se de estimular o surgimento de novas vocações industriais
associadas à informática, telecomunicações, biotecnologia, genética,
logística, eletrônica embarcada, microeletrônica e à indústria
de equipamentos de preservação ambiental.
A transição de regiões urbanas inteiras centradas na velha indústria
fordista para centros urbanos de dupla vocação econômica – indústria
moderna e terciário avançado –, impõe a elaboração de um plano
urbanístico capaz de abrigar o novo cenário sem os inconvenientes
do modelo anterior. Trata-se de criar um contexto que associe
o desenvolvimento urbano à melhoria contínua da qualidade de vida
em geral, ao estancamento – e reversão – da degradação do acervo
ambiental, à eliminação dos déficits cultural, habitacional, educacional
e de saúde, e ao equacionamento do drama da violência urbana e
do tráfico de drogas.
Como esses objetivos não podem ser atingidos sem que o planejamento
seja ancorado no conhecimento produzido pela universidade e fora
dela, a criação de núcleos de excelência em pesquisa de novas
tecnologias de saneamento ambiental, em arquitetura, urbanismo
e planejamento de regiões metropolitanas passa a ser vital para
o êxito de todo o projeto.
2. GOVERNANÇA
METROPOLITANA
Mas a transformação das cidades
em pólos de desenvolvimento urbano avançado e equilibrado pressupõe
também uma série de ações de caráter político-institucional, que
envolvem desde reformas nas instituições representativas nos planos
regional e local até a gestação de arquiteturas financeira e tributária
que favoreçam a retomada e racionalização da capacidade de investimento
dos municípios. Essas novas fórmulas deverão ser capazes de conciliar
as necessidades locais de financiamento com as macropolíticas
de investimento, o que exigirá mecanismos com a participação de
todas as instâncias envolvidas, sejam elas municipais, estaduais,
regionais, federais e até internacionais.
Aqui, como em outros casos, a economia depende estreitamente da
política. A tradição brasileira em relação ao municipalismo é
tendencialmente centralista, uniformizadora e conformista. Por
isso, a ação nessa área está condenada a ser profundamente ousada
para não ficar a meio caminho. Antes de mais nada, ela requer
uma reforma política que incorpore em novas bases as câmaras
de vereadores ao debate regional, elimine os vícios do clientelismo
e do nepotismo, impeça as situações políticas propiciadoras de
relações de chantagem entre o executivo e o legislativo municipais,
e dificulte a apropriação privada do espaço e dos recursos públicos.
É preciso, além disso, introduzir na legislação modificações que,
tirando partido da notável diversidade das situações, abram espaço
para experimentos institucionais adequados ao tamanho das cidades
e à natureza e escala de seus problemas e necessidades.
Os casos mais dramáticos são, inevitavelmente, os das regiões
marcadas pela conurbação. Aqui é preciso levar em conta tanto
a experiência internacional como a realidade brasileira e admitir
que se impõe a criação de instâncias de poder regionais, mecanismos
de gestão situados acima dos municípios e abaixo dos estados;
a elaboração de novas regras de representação política no plano
local e regional; e a disposição para levar ao limite o esforço
de descentralização administrativa do Estado nacional. Essa gestão
regional não exclui nem se substitui ao município, mas poderá
exigir um novo passo adiante, a criação de um novo ente federativo
situado entre o estado e o município – como prova aliás a
experiência italiana dos governos regionais. Ele agiria no sentido
de fortalecer as identidades locais e municipais, de forçar a
descentralização de poder político, de possibilitar melhor uso
dos recursos públicos e de democratizar a gestão de um país continental
e federativo como o Brasil.
Esse conjunto de inovações deverá consolidar tanto no plano legal
como no da cultura política o conceito de governança metropolitana,
isto é, a articulação entre municípios, estado, governo federal
e sociedade civil (empresas, trabalhadores e entidades representativas
em geral), experiência essa voltada para compatibilizar o plano
jurídico-institucional com a realidade objetiva das regiões metropolitanas
brasileiras.
3. COMUNIDADE
CÍVICA
Sem que as instâncias nacionais
de poder compreendam essas novas realidades urbanas, a luta por
novas formas de relacionamento entre cidades, metrópoles, regiões
e federação, estará condenada ao fracasso. Por outro lado, as
mudanças requerem também novas formas de participação do cidadão
na cidade. Nesse contexto, revalorizar os espaços urbanos é sinônimo
de ampliar, aprofundar, inovar e diversificar a vida democrática,
pois tal revalorização só será possível com o engajamento da população
citadina, das mais diversas extrações, na busca daqueles objetivos.
Essa geração de reformas institucionais urbanas não estaria completa,
portanto, se não estivesse voltada para facilitar a inserção de
novos atores no processo político e para estimular a participação
dos diversos setores da população no plano local. Tal participação
se fará necessariamente pelo reforço dos laços de solidariedade
interpessoal no interior da sociedade metropolitana, pelo fortalecimento
das organizações da sociedade civil, pela consolidação da cultura
democrática e pela elevação da auto-estima da população urbana
em geral. Em seu sentido mais profundo, esse processo deve propiciar
o florescimento nas cidades, especialmente nas metrópoles, de
uma comunidade cívica, apoiada num conjunto de valores
fortemente identificados com as tradições próprias de cada aglomerado
urbano, com as novas e antigas vocações econômicas, com a dinâmica
da vida cultural, com suas respectivas histórias, com uma idéia
de compartilhamento do bem público retrabalhada pelas organizações
sociais, pela nova cultura política e pela mídia.
A idéia de comunidade cívica pede uma nova visão das relações
entre a esfera pública e a esfera privada. Significa uma nova
abordagem da relação entre direitos e deveres no ambiente urbano,
que exigirá a superação, tanto por parte do Estado como das organizações
da sociedade civil, da visão particularista, do corporativismo
e das atitudes meramente defensivas e pessimistas, que devem ser
substituídas por atitudes de respeito ao espaço público, à qualidade
da vida urbana, à auto-estima e às identidades locais.
4. SEGURANÇA
PÚBLICA
Sem reverter, em prazo relativamente
curto, os índices de criminalidade; sem atacar simultaneamente
as várias fontes da violência urbana, não será mais possível vislumbrar
um futuro de qualidade de vida e mesmo de desenvolvimento econômico
contínuo para a maioria dos brasileiros. Há mais de vinte anos
a angústia da insegurança nas grandes e médias cidades está no
topo das preocupações das populações urbanas brasileiras, sem
que os partidos e lideranças políticas tenham se dado conta da
real dimensão do problema, tenham conseguido impedir, de forma
consistente, a deterioração do tecido urbano. O ponto de degradação
a que chegamos, entretanto, coloca o desafio da segurança pública
como item prioritário da agenda de transformações do Brasil.
A abordagem moderna dessa questão exige uma mudança em relação
a forma habitual de entender as causas da violência urbana. Em
primeiro lugar, é preciso ter claro que a redução dos níveis de
violência urbana não virá por força da lei da gravidade, não será
o reflexo automático da melhoria do padrão econômico das populações
pobres, não resultará de ações tópicas e isoladas de autoridades
estaduais e federais. Sem uma abordagem sistêmica da questão da
violência e da criminalidade, sem englobar num mesmo programa
de trabalho os aspectos econômicos, sociais, urbanos, culturais
e os especificamente policiais da questão, sem que essa ação seja
articulada no plano nacional, estadual e municipal, dificilmente
poderemos devolver um ambiente de segurança mínima às populações
das metrópoles brasileiras (e de significativas áreas rurais).
Ora, este é necessário para o exercício pleno da cidadania.
Quando, em 1983, o governo Franco Montoro formulou pioneiramente,
a partir de São Paulo, a política de direitos humanos nos presídios,
não poderia imaginar que, duas décadas depois, o falso dilema
"eficácia" versus "respeito à lei" e aos "direitos humanos"
ainda permanecesse insolúvel para os quadros policiais de governos
das mais diferentes extrações ideológicas. De fato, para a sensibilidade
democrática prevalecente, o próprio conceito de segurança pública
ainda permanece lamentavelmente associado a práticas de exceção
dos governos militares. Daí resulta uma freqüente paralisia no
diagnóstico e nas políticas de segurança em vigor. O Estado brasileiro
(União, estados e municípios) tem sido incapaz de enfrentar o
desafio representado pelo crescimento contínuo da criminalidade,
tanto em quantidade quanto em "qualidade", como atestam os exemplos
de profissionalização, articulação nacional e até internacionalização
das quadrilhas de traficantes de drogas, armas e de roubo de carros
e cargas.
Como golpear decididamente o crime organizado? Isto só será possível
a partir da firme determinação política do governo federal, emanada
diretamente da Presidência da República, com forte respaldo no
Congresso e no Judiciário, e de um conjunto de ações planejadas
centralmente e capazes de integrar União, estados, municípios,
instituições públicas e organizações sociais num mesmo esforço
de atacar as causas e as conseqüências da criminalidade.
Nesse sentido, um conjunto de propostas deveria incluir:
- um Programa Nacional de Segurança Pública,
com a integração das ações num mesmo organismo de âmbito nacional
- um Ministério da Justiça politicamente
reforçado para a missão;
- um programa de investimentos sociais
e de renovação das áreas urbanas mais degradadas e das regiões
rurais abandonadas;
- a requalificação e o aparelhamento de
toda a estrutura de segurança pública brasileira (Polícia Federal,
polícias estaduais, Sivam, Abin, guardas municipais );
- mudanças legais tendo em vista atribuir
aos estados a competência para equacionar um dos principais
obstáculos à eficiência policial no Brasil: a divisão e competição
entre suas polícias civil e militar;
- um forte investimento em planejamento,
em polícia científica e investigativa, em institutos de criminalística
e na produção de informações sistematizadas sobre os circuitos
da criminalidade. O Brasil precisará estar apto a defender seu
território de quadrilhas ramificadas em vários países, e os
estados terão de saber enfrentar criminosos com bases de operação
em todo o país. Autoridades estaduais e federais terão, portanto,
de dispor de meios de comunicação e transmissão de informações
entre estados e países, e de um mapeamento preciso das ações
criminosas;
- um programa de segurança pública específico
para enfrentar a ameaça recentíssima do crime globalizado e
da delinqüência eletrônica na Internet, nas redes informatizadas
e nos sistemas telefônicos;
- a inclusão do tema na pauta de prioridades
da atual política externa. Sendo o crime globalizado, caberá
à diplomacia brasileira exigir de seus parceiros internacionais
as medidas de cunho nacional que tenham efeito sobre a prática
criminosa no Brasil. Uma política de segurança no âmbito do
Mercosul, por exemplo, torna-se cada vez mais necessária, assim
como a exigência de medidas que coíbam o consumo de drogas e
a produção de armas nos países desenvolvidos;
- a descentralização e o engajamento dos
municípios e dos eixos de desenvolvimento econômico regional
no programa nacional de segurança pública, por meio das políticas
de policiamento comunitário, criação das Guardas Municipais
e aumento da autonomia dos poderes locais para o enfrentamento
da delinqüência – isto é, com orçamentos definidos e instituições
municipais aptas à tarefa;
- envolvimento, no plano de segurança,
das populações e organizações sociais das áreas mais expostas
à violência, por meio do estímulo a iniciativas culturais, esportivas,
sociais e econômicas que, gradativamente, resgatem, em tais
localidades, a sociabilidade perdida para as estruturas do crime
organizado;
- reformas no sistema penal e judiciário
para agilizar a aplicação da justiça e coibir o sentimento generalizado
de impunidade, especialmente em prejuízo dos mais pobres;
- reforma do regime previdenciário, tendo
em vista reduzir drasticamente a superpopulação dos presídios,
coibir a violência desregrada o desrespeito permanente aos direitos
humanos que ocorrem no seu interior, estimular o uso de penas
alternativas e favorecer a reeducação do preso pelo trabalho;
- apoio à informatização e profissionalização
dos quadros de segurança pública nos estados e municípios;
- medidas para desbaratar e redirecionar
os circuitos de atividade econômica já associados à atividade
ilegal, como as plantações de maconha no Nordeste ou o tráfico
de drogas nas fronteiras da Amazônia e do Centro-Oeste.
Todas essas ações farão o Estado
estar mais presente nas esferas de influência da marginalidade
– vale dizer, levarão a lei, a ordem, a justiça e o exercício
dos direitos sociais mínimos às populações hoje sob o domínio
da impunidade e do crime. É sua tarefa conferir ao conceito
de segurança do cidadão um valor intrinsecamente democrático e
progressista, afastando-o portanto das ressonâncias indesejáveis
do passado autoritário, aproximando-o da expectativa das ruas
e tornando-o uma realidade presente no cotidiano da maioria da
população brasileira.
5. TRABALHO,
EMPREGO E RENDA
Esse é outro ponto em que a realidade
brasileira atual apresenta um quadro de notável complexidade.
O Plano Real eliminou importantes obstáculos ao desenvolvimento
do país, mas a baixo nível de crescimento da economia nos últimos
anos ampliou o desemprego e levou a insegurança e a deterioração
das condições de vida a uma parcela significativa de brasileiros
e brasileiras, especialmente nas áreas metropolitanas. O desemprego
atinge em particular os jovens que intentam ingressar no mercado
de trabalho. O quadro é dramático também em diversas zonas rurais
e em pequenas cidades das regiões mais pobres do Brasil. Contingentes
consideráveis da população não encontram ocupação que lhe permita
obter uma renda mínima. Essa tragédia se multiplica quando as
secas flagelam os sertões, devastando a agricultura de subsistência.
A recente retomada do crescimento econômico diminuiu o medo e
reacendeu as esperanças da população, mas fatores estruturais
ligados tanto à situação externa quanto às próprias mudanças no
mercado de trabalho continuam bloqueando a plena explicitação
da tendência ao desenvolvimento sustentável. Embora criem novos
empregos ou revitalizem áreas estagnadas, a modernização da economia
e as mudanças tecnológicas também levam à redução da força de
trabalho em setores industriais tradicionais. Em conseqüência
da imensa participação do Estado na esfera produtiva, a crise
fiscal também contribui para desacelerar a economia e corroer
a capacidade de investimento do setor público.
Outro fator que provoca o aumento do desemprego é a excessiva
incidência de impostos sobre a folha de pagamentos salariais das
empresas, que inibe a contratação de empregados. Simultaneamente,
a ampliação do setor informal de trabalho tem levado a uma diminuição
de certos direitos e garantias do trabalhador, tornando duvidoso
seu reingresso em sua profissão. Dada a permanência de preconceitos
e desigualdade de oportunidades, o próprio aumento da participação
das mulheres na disputa pelos postos de trabalho, se assinala
uma evolução positiva do mundo moderno em geral e do mercado de
trabalho brasileiro em particular, atua num primeiro momento no
sentido de comprimir o preço da mão-de-obra. Nenhuma dessas circunstâncias
pode deixar de ser levada em conta pelos poderes públicos e por
uma política democrática de inserção social pelo trabalho. Esse
conjunto de fatores pressiona para baixo os salários, pois enfraquece
a pressão dos trabalhadores e dissipa a ação dos sindicatos e
das entidades de defesa das categorias profissionais.
Tendo como pressuposto a luta pela retomada plena do desenvolvimento
econômico, o objetivo é conduzi-lo de forma a alcançar nos próximos
anos a abertura de novos empregos para incorporar os contingentes
que estão se apresentando no mercado de trabalho e reduzir sensivelmente
o número de desempregados. Não se trata, entretanto, de retornar
aos padrões da velha sociedade industrial. Tendo em vista, realisticamente,
os novos padrões de produção e de trabalho na sociedade moderna,
é preciso concomitantemente criar condições que propiciem ocupação
e renda para uma extensa faixa da população com poucas oportunidades
de obter empregos estáveis. O aumento do número de empregos e
a possibilidade de criação de novas fontes de renda resultarão
da aceleração do crescimento econômico, a partir da duplicação
das exportações e de investimentos privados e públicos na indústria,
na agricultura, no comércio, no turismo, nas atividades culturais
e de lazer etc. Como já vimos, um papel destacado nessa busca
pelo desenvolvimento sustentável deve corresponder às medidas
para resolver os angustiantes problemas das grandes cidades, com
obras em sua infra-estrutura, notadamente as relacionadas com
programas habitacionais, de saneamento e de melhoria dos transportes
coletivos.
Devem ser reexaminadas algumas normas da legislação trabalhista
que oneram os custos da admissão de mão-de-obra, principalmente
os impostos incidentes sobre a folha salarial, sem que essas alterações
sejam feitas à custa dos direitos e das conquistas dos trabalhadores.
É preciso lutar também para eliminar os obstáculos legais à negociação
direta entre empregados e patrões em torno das condições de trabalho
em cada empresa, principalmente quando crises eclodem em segmentos
específicos da economia. Ao mesmo tempo, cabe ampliar os programas
oficiais de treinamento e reciclagem de empregados e trabalhadores,
tendo em vista a necessidade de aprimorar a mão-de-obra e qualificá-la
para enfrentar as novas exigências da economia.
Nesse caso, podem ser arroladas medidas envolvendo crédito, assistência
técnica e programas de requalificação em pelo menos quatro áreas
de atuação:
- micro, pequenas e médias empresas, que
em geral empregam um maior contingente de mão-de-obra;
- atividades rurais, especialmente aquelas
voltadas para a agricultura familiar;
- jovens, com programas específicos de
formação profissional para os que estão ingressando no mercado
de trabalho, tendo em conta as oportunidades de ocupação em
cada região e cidade;
- chefes de família desempregados e que
não estejam sendo beneficiados pelo seguro-desemprego.
O PSDB defende também que os bancos
oficiais disponham de linhas especiais de crédito, com as características
de um "banco do povo", de forma a atender as necessidades de pessoas
que podem desenvolver atividades produtivas, mas que para tanto
necessitam de um mínimo de capital. Será dada prioridade às cooperativas
de trabalho.
O problema do desemprego e da falta de trabalho não depende apenas
do governo federal, não obstante recair sobre ele uma imensa responsabilidade.
É indispensável a participação de todos os órgãos e setores do
Poder Público, das entidades da sociedade civil, das organizações
não-governamentais e, particularmente, do universo empresarial
no enfrentamento desse desafio. Deve-se ter em vista o estabelecimento
de parcerias de diversos tipos, usando formas criativas para agregar
a colaboração de todos, de modo a ser garantida uma melhor qualidade
de vida das camadas mais pobres da população brasileira.
6. PREVIDÊNCIA
SOCIAL
Ao lado dessas questões destaca-se
o básico e aflitivo problema da Previdência Social. O desafio
tornou-se crucial com a acelerada mudança do perfil demográfico
da população: se décadas atrás éramos um país com um número relativamente
baixo de pessoas que necessitavam de amparo da seguridade social,
hoje esse é um considerável contingente de brasileiros e brasileiras
e tudo faz crer que ele crescerá ainda mais, com a diminuição
da mortalidade infantil, a melhora das condições de saúde e a
ampliação das expectativas de vida. Esse novo perfil demográfico
torna mais pesada a responsabilidade da sociedade e do Estado,
dada a necessidade de assegurar uma vida digna e tranqüila para
os aposentados e pensionistas. E só nos últimos anos fomos nos
dando conta de como esse encargo passou a exigir de todos, e particularmente
do Poder Público, um elevadíssimo investimento em recursos financeiros.
Também aqui, lidamos com uma pesada herança do passado. Até pouco
tempo atrás, a imprevidência e a falta de percepção da magnitude
e da evolução provável desse problema levaram à adoção de medidas
insuficientes, improvisadas, irrealistas e quando não demagógicas,
que estruturaram um sistema previdenciário iníquo e injusto,
permeado de privilégios que favorecem aqueles com maior capacidade
de pressão nos círculos de poder, em detrimento do atendimento
das necessidades das camadas mais pobres de nosso povo. A
anomalia mais gritante, é preciso que se diga, ocorreu com certas
faixas do funcionalismo público, que recebem benefícios mais elevados
do que os concedidos aos aposentados e pensionistas do INSS. Outro
fator que comprometeu o equilíbrio financeiro da Previdência Social
foi que se jogou em suas costas a responsabilidade de garantir
uma renda mínima para milhões de famílias pobres nos meios rurais.
Trata-se, sem dúvida, de uma política justa, de elevado alcance
social e irreversível. Mas por isso mesmo demanda que seja assegurada
à Previdência, de forma clara e transparente, uma receita advinda
dos impostos arrecadados pelo Erário, de modo a não comprometer
a estabilidade futura do sistema previdenciário.
A complexidade da questão da previdência social é visível em quase
todos os países do mundo. A necessidade de uma ampla reforma nesse
campo não pode ser eludida pelo receio de bater de frente com
vários corporativismos. De nossa parte, comprometemo-nos a lutar
com determinação pela sua mudança, ouvindo todos os setores da
sociedade e buscando encontrar uma solução que corresponda ao
ideário da justiça social, à superação de privilégios e à responsabilidade
no trato com as coisas públicas.
7. SAÚDE PÚBLICA
A saúde pública é um desafio crucial
para um partido que luta por uma sociedade mais justa. Em todo
o mundo, a social-democracia destacou-se por iniciativas pioneiras
nesse campo. Para o PSDB, a saúde é um ponto de honra. As falhas
e insuficiências nos serviços de saúde são responsáveis pelos
ainda altos índices de mortalidade infantil, a despeito dos notáveis
avanços dos últimos anos, e pelo sofrimento injustificável de
milhões de brasileiros pobres, mal-assistidos e desamparados.
Nos últimos anos, a estratégia nacional de saúde pública avançou
significativamente. com as diretrizes contidas na Constituição
de 1988 e na legislação que instituiu o Sistema Único de Saúde
(SUS). Juntas, elas consubstanciaram uma política pública de
inequívoca vocação democrática. Firmaram-se então alguns princípios
básicos, como o atendimento universal, a eqüidade das ações de
saúde, a descentralização dos serviços e o controle social de
sua aplicação. Tais diretrizes vêm sendo postas em prática a duras
penas, com o objetivo de instalar a gestão plena do SUS nos grandes
núcleos populacionais. Mas devido a magnitude desses desafios,
ainda falta muito para alterar a dramática situação da saúde pública
de enormes contingentes das populações pobres do Brasil.
Levando em conta as lições da prática recente, o PSDB defende:
- a generalização da assistência médica
domiciliar, principalmente nas metrópoles. As equipes formadas
por agentes comunitários, médicos e outros profissionais de
saúde devem contar em sua retaguarda com o apoio de ambulatórios
e hospitais da rede pública;
- a ampliação da ação do Estado no campo
da prevenção de enfermidades, inclusive as impostas por atentados
ao meio ambiente;
- o fortalecimento das agências governamentais
de vigilância sanitária e ambiental;
- a valorização do papel desempenhado por
entidades sociais sem fins lucrativos que se dedicam ao atendimento
de saúde em suas comunidades. Sua atuação é tão mais importante
quanto mais sabemos das insuficiências dos órgãos governamentais.
Essas organizações devem merecer apoio do poder público por
meio de acordos e parcerias que correspondam aos princípios
gerais da política de saúde;
- a necessidade de firmar no texto constitucional
normas obrigatórias de aplicação de recursos públicos na área
de saúde, nos três níveis de governo. A eliminação do déficit
nas contas públicas pode ser obtida sem comprometer os investimentos
necessários ao combate à exclusão social. A contrapartida imprescindível,
é claro, é o combate às práticas criminosas, aos desperdícios
e ao mau uso dos recursos públicos;
- o aprofundamento da descentralização
e da municipalização das atividades de saúde, que deve ser complementada
pela generalização da experiência de consórcios intermunicipais
na prestação de serviços médicos e hospitalares;
- a ampliação do controle da sociedade
sobre o conjunto das atividades relacionadas à saúde, em especial
por meio dos conselhos e conferências de saúde previstos pelo
SUS;
- o reforço do controle e da vigilância
dos órgãos públicos sobre os planos privados de saúde, tendo
em vista que os milhões de brasileiros que a eles recorrem,
não podem ser burlados por normas que ferem os direitos do consumidor;
- a consolidação da política de comercialização
dos medicamentos genéricos. Tanto a fabricação como a comercialização
de remédios, com supervisão de sua qualidade e preço, devem
ser acompanhadas de perto pelo Estado, pois nessa área tão essencial
à vida de milhões de cidadãos não podem prevalecer as regras
costumeiras do mercado;
- o incremento da pesquisa científica e
tecnológica no Brasil dedicada, de forma direta e indireta,
à solução de problemas de saúde da população.
Apoiamos enfaticamente as medidas
que vêm sendo tomadas pelo Ministério da Saúde no sentido da fiscalização
e controle dos planos privados de saúde e face à questão das patentes
dos produtos farmacêuticos. Nesse último caso, apoiamos decididamente
a proposta do governo brasileiro em fóruns internacionais e consideramos
ser um dos direitos do homem, particularmente das populações pobres,
o uso de remédios essenciais a sua existência. É, por isso, inaceitável
que os preços exorbitantes desses medicamentos sejam fixados arbitrariamente
pelos poderosos grupos que atuam no setor. Em conseqüência, impõe-se
ao Poder Público a intervenção direta nesse ramo da economia,
recorrendo inclusive à ampliação dos laboratórios estatais destinados
à produção de medicamentos.
8. EDUCAÇÃO
A educação é outro terreno onde
o Brasil está vivendo uma inédita transformação. Aos poucos, os
sonhos e planos de notáveis educadores – como Fernando de Azevedo,
Anísio Teixeira e Lourenço Filho – vão se concretizando, derrotando
a resistência dos que não compreendem que essa revolução é um
elemento essencial no processo de desenvolvimento da nação brasileira.
Desde 1995, com o total apoio do Congresso Nacional, o governo
Fernando Henrique Cardoso vem realizando um programa arrojado
de propostas inovadoras e aprofundamento de ações antes esboçadas,
inclusive sobre a utilização dos recursos do Poder Público – da
União, estados e municípios – nas atividades educacionais. Entre
as linhas inovadoras está a adoção de medidas promotoras e incentivadoras
da qualidade da educação como: parâmetros curriculares nacionais,
avaliação do ensino, melhoria do sistema de estatísticas educacionais,
o FUNDEF, valorização da escola como unidade básica do processo
educacional, apoio à formação dos professores e melhorias na remuneração
e na sua situação funcional, além dos grandes programas de merenda
escolar e livro didático. Com essa opção histórica está sendo
dado um passo decisivo para a construção de uma sociedade mais
justa e para efetivamente incorporar à cidadania milhões de brasileiros
marginalizados pela ignorância, pelo atraso e pela falta de qualificação
educacional.
Somadas as matrículas em todos os níveis de ensino, o Brasil tem
hoje cerca de 54,3 milhões de estudantes; os gastos públicos com
a educação correspondem a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), um
investimento considerável levando-se em conta a multiplicidade
de questões que atormentam os brasileiros. O mérito do que está
sendo empreendido não reside apenas em índices quantitativos.
Decorre também dos pontos básicos que presidem a política traçada
pelo governo: a de atribuir prioridade ao ensino fundamental,
seguindo os preceitos da universalização, da descentralização
e da municipalização das atividades educacionais, e
criar órgãos que assegurem a participação das comunidades na gestão
e no controle dos recursos das escolas.
Apesar desses êxitos, temos consciência de que apenas iniciamos
uma longa e árdua jornada. Se nos últimos trinta anos o analfabetismo
caiu pela metade, o número de analfabetos com mais de 14 anos
de idade é ainda de 16 milhões. Outros dados são igualmente preocupantes,
como o ingresso tardio de muitas crianças nas escolas e o fato
de uma parcela elevada de alunos abandonar a vida escolar. Igualmente
inaceitável é o atraso educacional no Nordeste e no Norte, em
relação com o quadro reinante no Sul e no Sudeste do Brasil, descompasso
que contribui para eternizar o desequilíbrio entre as regiões
do país. Esses e outros fatos indicam que, assentados os fundamentos
legais que permitem uma audaciosa ampliação das atividades educacionais,
o grande desafio reside em superar as insuficiências e melhorar
a qualidade do ensino, enfrentando as dificuldades que se apresentam.
A questão decisiva reside na formação dos professores para o ensino
fundamental e médio, valorizando o magistério com a melhoria dos
salários dos professores e de suas condições de trabalho, tarefa
já iniciada com a criação do FUNDEF. A requalificação e a formação
do professorado é um ponto crucial porque 600 mil professores
não freqüentaram cursos superiores e cerca de 80 mil deles são
leigos, portanto, sem a adequada formação . Por isso, é imprescindível
garantir os meios e recursos necessários para, em poucos anos,
assegurar a formação nos cursos superiores de todos os professores.
Há a necessidade de complementar a universalização de qualidade
do ensino fundamental, com a atenção para a educação infantil
preparatória para aquele e de cada vez maior importância para
o educando e sua família.
Com a expansão do ensino fundamental e devido às exigências do
mercado de trabalho, alguns problemas demandam pronta solução.
Tornou-se urgente uma rápida modificação no panorama do ensino
médio, pois, se em 1994 cerca de cinco milhões de jovens nele
estavam matriculados, atualmente esse contingente é de oito milhões.
Essa expansão torna dramática a necessidade de cuidar da qualidade
do ensino médio; trata-se de elevar globalmente o nível de escolaridade
da população e usá-lo para diminuir os desequilíbrios sociais
e regionais no país.
Ao mesmo tempo, chegou a hora e a vez de um reexame radical do
ensino superior no Brasil. Nos últimos cinco anos, seu crescimento
foi notável, como o aumento de 28% na oferta de vagas. Essa expansão
resulta principalmente do crescimento impetuoso das faculdades
do setor privado, embora as matrículas na rede pública também
tenham se ampliado. Neste momento, as faculdades privadas estão
educando cerca de 1,5 milhão de jovens. Consideramos que a participação
do setor privado no ensino superior no Brasil é um fator positivo.
Diante da impossibilidade de o Estado atender à demanda existente,
não há outra maneira de absorver todos que batem às portas da
universidade. Se essa expansão é necessária e inevitável, exige
por outro lado das autoridades educacionais uma avaliação e uma
fiscalização permanente da qualidade desse ensino, forçando a
sua elevação.
São as universidades públicas, entretanto, o eixo do sistema de
ensino superior no Brasil, as instituições onde se concentram
a produtividade e a excelência da pesquisa necessária ao desenvolvimento
científico e tecnológico do país, o lugar privilegiado para a
formação de professores para o ensino médio e fundamental e um
dos mecanismos principais de ascensão social dos setores médios
e pobres da população. Elas cumprem, assim, múltiplos papéis,
nem sempre compatíveis entre si. Mas de ambos os lados – tanto
da excelência acadêmica, pois o sistema brasileiro de pós-graduação
é um dos raros, entre os países em desenvolvimento, com condições
de competir internacionalmente; como da função democratizadora
e modernizadora que a universidade pública exerce na vida brasileira
– não faltam argumentos a favor de sua expansão.
A manutenção das universidades federais representa, entretanto,
um elevado ônus para os cofres públicos e nelas existem graves
distorções. Embora esse conjunto de problemas não deva ser usado
para justificar um impossível desengajamento do Poder Público
em relação ao setor, é preciso avançar no sentido de modificar
a gestão dessas universidades, tornando-as autônomas administrativamente,
em conformidade com o modelo das universidades públicas paulistas.
Nessas condições, elas serão responsáveis pelas suas próprias
decisões de aplicação de seus recursos.
Mais do que isso, a situação atual exige uma reforma cuidadosa
e profunda da universidade. Por isso, o PSDB propõe a abertura
de uma amplo debate nacional sobre o tema, que deve confluir para
a elaboração de um projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso
nacional. É de fundamental importância que a própria comunidade
acadêmica, que desempenha entre nós um papel invulgar, possa oferecer
à Nação as linhas básicas dessa reformulação. Uma tal reforma
pode vir a alcançar a mesma estatura da renovação empreendida
no passado, pelos pioneiros da "Escola Nova", pelos fundadores
da Universidade de São Paulo, e pelos idealizadores da Fapesp,
da Capes e do CNPq.
9. CULTURA
Para o PSDB, tanto a educação quanto
a cultura têm que ser vistas como parte essencial de uma política
de Estado. Na verdade, temos consciência de que o debate sobre
as opções do desenvolvimento – sobre o desenvolvimento que nós
queremos – exige hoje uma reflexão prévia sobre a cultura em geral,
e sobre a cultura brasileira em particular. Isso quer dizer que
se quisermos um futuro melhor para os nossos filhos, e se quisermos
projetar o lugar que deve caber ao Brasil no mundo globalizado,
então a cultura terá que receber por parte dos partidos e por
parte do Estado, o mesmo tipo de reconhecimento que é dado às
questões da economia, da pobreza, da saúde, do emprego, etc.
Os motivos são vários. Em primeiro lugar, nas condições do mundo
moderno, a injustiça social não se expressa apenas na carência
material e no acesso desigual aos bens materiais, mas também se
revela nas diferenças de acesso à educação e à cultura. Essa desigualdade,
historicamente aflitiva, tem se tornado mais dramática ainda diante
do processo de globalização.
Como já vimos, a globalização tanto amplia o espaço de manifestação
das diversidades nacionais, regionais e locais, como favorece
o estreitamento dos laços entre povos e nações. A cultura, nesse
sentido, se torna cada vez mais universal, o que quer dizer também
que as culturas nacionais suficientemente ricas e plurais têm
a chance de se universalizarem. Por outro lado, na medida em que
o mercado desconhece fronteiras e abala os alicerces do Estado
nacional, a luta pela revitalização dos valores, costumes e
tradições, torna-se essencial para a preservação da identidade
cultural e artística do país e esta, por sua vez, se torna um
critério seguro do interesse nacional.
Um outro aspecto fundamental dessa relação entre cultura e desenvolvimento
é que a extraordinária expansão das instituições culturais – museus,
teatros, bibliotecas, televisões, cinema, salas de música, dança,
galerias de arte, etc. – fez da cultura uma dimensão ineliminável
da educação na moderna sociedade de massas. Esses espaços culturais
são escolas, mecanismos formais e informais de socialização do
saber, de disseminação dos valores mais caros da civilização.
São, além disso, instrumentos de produção e de geração de emprego
e renda, haja vista a pequena, mas cada vez mais significativa
parcela do Produto Interno Bruto que é gerado pelas atividades
culturais.
Fomentar a cultura é, portanto, tarefa de política de Estado.
De fato, dada a magnitude das carências, a escassez dos recursos
e a grandiosidade dos meios que a atividade cultural e artística
de um povo exige, a cultura é uma dessas áreas em que o Estado
não é nem pode ser absenteísta. Ao mesmo tempo, é impossível deixar
de reconhecer hoje a relevância do mercado no mundo da cultura.
Aqui, Estado e mercado têm que ser concebidos como parceiros em
uma trajetória que deverá apoiar-se cada vez mais no aperfeiçoamento
da democracia e na expansão da economia.
10. DESENVOLVIMENTO
RURAL
A agricultura brasileira tem mostrado
uma extraordinária capacidade produtiva, aproveitando-se da potencialidade
dos nossos recursos naturais, que permitem a obtenção de duas
a três colheitas anuais. O avanço tecnológico fez aumentar substancialmente
a produtividade no campo, permitindo constantes recordes de safra.
De um patamar de 60 milhões de toneladas de grãos em 1990, ultrapassamos
94 milhões de toneladas em 2001. Esse acréscimo de 50% na safra
granífera, em apenas 10 anos, ocorreu sem aumento da área cultivada,
que se mantém ao redor dos 40 milhões de hectares. Trata-se de
uma evidência indiscutível a favor da competência dos agricultores
brasileiros.
Mais surpreendente ainda, esse desempenho do setor de grãos deu-se
sem deslocar as demais atividades, sejam as culturas permanentes,
seja a pecuária. Pelo contrário, a pecuária expandiu-se fortemente,
incluindo a avicultura, a suinocultura e a pesca. Pode-se mesmo
dizer que a pecuária de corte passa por uma verdadeira revolução
tecnológica, com a introdução de raças européias, utilizadas na
hibridação com o gado nelore, predominante no rebanho nacional.
No café, na laranja e na cana-de-açúcar, os ganhos de produtividade
e de qualidade são constantes, somente ultrapassados pela fruticultura,
onde os avanços tecnológicos permitem a fruta nacional ganhar
qualidade.
O excepcional desempenho da agropecuária ocorreu, paradoxalmente,
num contexto de aperto monetário, com a redução do volume de crédito
oficial. O endividamento dos agricultores em 1994, na chegada
do Plano Real, foi o maior já atingido no campo. Feita a securitização
das dívidas, com prazos entre 7 a 10 anos para quitação, ao mesmo
tempo que as taxas de juros foram se reduzindo e o mercado
financeiro operando via futuros no financiamento agrícola,
ganhou a agropecuária capacidade de investimentos, crescendo em
produção e produtividade. Recentemente, em 1999, o financiamento
do máquinas e implementos agrícolas com juros fixos, de 8,75 e
10,25%, permitiu uma explosão na mecanização. Basta dizer que,
em menos de 2 anos, cresceu 40% a venda de tratores e colheitadeiras.
Com o avanço tecnológico, o grande desafio da agricultura saiu
da produção e foi para o mercado. Recordes de safra acabam depreciando
o preço dos produtos, dependendo dos mercados agora globalizados.
As barreiras protecionistas dos países ricos tolhem as possibilidades
do aumento nas exportações, tanto quanto deformam os mercados
os volumosos subsídios que são oferecidos aos agricultores
da União Européia e EUA. Nesse contexto, abrir novos mercados
é fundamental para garantir a continuidade da expansão agrícola
nacional. Já no mercado interno, a elevação da renda média dos
brasileiros, propiciada pela estabilidade com crescimento, é a
melhor garantia do acréscimo de consumo, especialmente para produtos
mais protéicos e nobres, como carnes, frutas e hortaliças.
É preciso, no entanto, observar que o desenvolvimento rural
deve ser norteado pela preocupação de corrigir uma característica
catastrófica em nossa história: a dilapidação irracional de bens
naturais, especialmente do solo e de recursos hídricos e florestais.
Exemplos gritantes dessa trajetória calamitosa são a derrubada
quase total da mata atlântica, a desertificação de extensas áreas
da campanha gaúcha, a degradação de bacias hidrográficas como
a do São Francisco, além do que sucede com a floresta amazônica
e com extensas áreas do cerrado. Por isso devemos acompanhar atentamente
as atividades agropecuárias e outras que exploram os recursos
naturais, coibindo procedimentos que agridam de maneira irreversível
a natureza. Para tanto, é indispensável ampliar a vigilância dos
órgãos públicos sobre essas atividades, fundamentada nas indicações
das entidades científicas, no trabalho de assistência técnica
aos produtores, e nas advertências de organizações não-governamentais
que atuam nessas áreas.
O desenvolvimento rural pressupõe e exige, assim, uma nova postura,
uma compreensão renovada da responsabilidade de nossa geração
com o futuro da gente brasileira.
Do ponto de vista social-democrata, o maior desafio reside na
manutenção e no fortalecimento da massa de pequenos e médios agricultores,
estimados em 4,5 milhões de famílias produtoras, que enfrentam
heroicamente uma disputa desigual no mercado globalizado. O PRONAF
procura exatamente incorporar tais agricultores na modernidade
da tecnologia agropecuária. Garantir renda suficiente para manter
o emprego no campo deverá ser o centro da nova política agrícola.
Mais que crédito, que é necessário, o desenvolvimento rural somente
será alcançado se for disseminado o conhecimento e a tecnologia,
através de reconstrução de uma rede de apoio técnico e educacional
no campo.
Na reforma agrária, a distribuição de quase 20 milhões de hectares
de terras para 450 mil famílias de trabalhadores rurais representou
o maior programa agrário jamais efetuado no mundo pela via democrática.
O Banco da Terra iniciou novo capítulo da política fundiária,
permitindo o financiamento da compra de terras pelos próprios
interessados, com juros fixos de 3% ao ano e 20 anos para pagar.
Espera-se que outros 500 mil novos agricultores venham a ser contemplados
pelo Banco da Terra, especialmente nas regiões mais avançadas,
onde a desapropriação de latifúndios deixou de ser instrumento
eficaz para promover a distribuição fundiária.
Assegurar a qualidade dos assentamentos, incluindo os novos agricultores
no contexto da produção comercial é, hoje, mais importante
que aumentar a quantidade dos assentamentos rurais. Consolidar
a reforma agrária, permitindo o progresso econômico e social
dos trabalhadores rurais, assim a social-democracia quer dar
um exemplo de responsabilidade na sua política agrária.
11. COMBATE
ÀS DISCRIMINAÇÕES
Todo o esforço da política social-democrata
deve concentrar-se no combate tenaz à exclusão de milhões de brasileiros
imersos na pobreza, no abandono e no preconceito. À maneira da
conquista da estabilidade econômica, a incorporação desses milhões
aos universos do mercado e da cidadania exige e impõe ousadia
e persistência, sob pena de transformar em letra morta o princípio
constitucional da igualdade de todos perante a lei. Por isso mesmo,
sua realização prática exige uma ideologia de igualitarismo material,
capaz de sustentar e justificar as estratégias adequadas àqueles
objetivos, a adoção de programas e a ações concretas nos diferentes
níveis de poder. Essas ações, todavia, não devem envolver apenas
a esfera do Estado, mas também as organizações não-governamentais.
Na cena internacional contemporânea há vários exemplos de iniciativas
de inclusão social bem sucedidas, a maioria delas promovidas pelas
correntes social-democráticas. Repensá-las e adaptá-las para o
Brasil requer a coragem de romper com os resistentes bolsões de
conservadorismo presentes em nossa própria cultura. O tema é naturalmente
polêmico, mas não devemos temer elaborar políticas de ação afirmativa
e usá-las como instrumento para acelerar a ascensão profissional,
educacional e política de minorias historicamente vítimas de preconceitos.
Onde foram aplicadas com cautela, bom senso e sensibilidade para
com as especificidades nacionais, elas têm se revelado positivas.
No nosso caso, não basta pensá-las como políticas compensatórias
que apenas minoram os efeitos perversos da desigualdade de oportunidades
e da concentração de renda. Ao contrário, dado o profundo fosso
social, precisamos discriminar positivamente em favor dos excluídos,
favorecendo a integração social e econômica dos negros, das mulheres,
dos portadores de deficiência física, dos homossexuais, dos egressos
do sistema prisional, das populações indígenas e dos recentes
e bem-vindos contingentes de imigrantes latino-americanos e africanos.
Nesse sentido, podemos começar por saldar a imensa dívida social
contraída em função da escravidão e da marginalidade econômica
e social a que foram relegados os libertos em 1888. Tendo o cuidado
de evitar atitudes paternalistas, é preciso estimular abertamente
a necessidade de ajustar contas com um dos mais perversos elementos
constitutivos de nossa história. Fugindo ao conformismo e à inércia,
essa postura ativa deve em relação aos negros, se materializar
em políticas de vagas, seja nas universidades públicas, obedecidos
alguns critérios básicos de desempenho escolar e perfil sócio-econômico;
nas empresas, em troca de benefícios fiscais ou tributários, ou
isenção e encargos trabalhistas; e nos partidos, nas listas de
candidatos a postos eletivos. No plano cultural, trata-se de dar
combate a todas as formas de discriminação racial, explícitas
ou não, na mídia, na publicidade, nas produções culturais, etc.,
prevendo-se o apenamento rigoroso dos que as pratiquem.
Em relação às mulheres, é de justiça reconhecer que tanto a situação
quanto a legislação existente vêm se modificando para melhor nos
últimos tempos. Persistem, entretanto, graves desigualdades de
oportunidades no mercado de trabalho e no universo político e
cultural. A implementação da reforma do Código Penal brasileiro,
há décadas dormindo no Congresso, afigura-se como fundamental
para corrigir arcaísmos e aberrações existentes na legislação
ordinária, a despeito da firme declaração de propósitos igualitários
da Constituição de 1988. A criminalização do adultério, as possibilidade
legais de anulação de casamentos com mulheres não virgens e de
deserdação de "filhas desonestas", são exemplos de excrescências
que permanecem, muito embora a sociedade brasileira tenha claramente
evoluído noutra direção.
Outro ponto delicado tem a ver com o direito ao próprio corpo.
Se o considerarmos um direito inalienável da mulher, segue-se
que o aborto deverá estar franqueado às brasileiras na rede pública
de saúde, nos casos previstos em lei. Por mais polêmico que seja,
não se pode deixar de levar em conta a realidade existente, especialmente
as terríveis condições nas quais são realizados os abortos sob
a precária legalidade em vigor. A exemplo de outros países, a
melhor solução política será abrir o debate para que todas as
correntes se manifestem e propor um plebiscito que dirima a questão.
Alguns partidos desenvolveram recentemente regras fixando cotas
femininas nas instâncias partidárias. Ainda que a prática tenha
mostrado que elas não foram, por diversas razões, preenchidas,
isso não diminui a importância de estabelecer essa diretriz para
todos os partidos, no âmbito da reforma partidária.
Outra área em que a sociedade brasileira revela um atraso incomensurável
é no tratamento dispensado aos portadores de deficiências físicas.
Há, assim, muito o que fazer para assegurar, sem paternalismo,
a sua inserção no mercado de trabalho, e para tornar o espaço
público – as ruas, os edifícios públicos e privados, os bancos,
as áreas de diversão, etc. – apto para abrigar e facilitar a vida
do portador de deficiências. Tais condições de igualdade devem
incluir salas, transportes e linguagem especiais, assim como,
no caso de concursos públicos, dias especiais para a realização
das provas e cotas mínimas a serem preenchidas, desde que atinja
o mínimo de desempenho válido para qualquer cidadão.
É importante também ressaltar que o acesso dos portadores de deficiências
físicas ao mercado de trabalho nas empresas privados tem sido
facilitado pela profissionalização das entidades de organização
e apoio a esses segmentos. Nestas circunstâncias, cabe ao estado
oferecer algum tipo de estímulo a essas empresas, bem como apoio
às entidades não-governamentais que se batem por sua integração.
A contrapartida deverá ser a formalização de auditorias e metas
de desempenho para a continuidade desse apoio, que deverá também
ser submetido à supervisão do poder legislativo.
12. POLITICA
DA JUVENTUDE
Consideramos fundamental garantir
e incentivar a participação dos jovens em todas as esferas da
sociedade e nos processos de decisão, em nível municipal, regional
e nacional, dando-lhes condições de serem protagonistas do desenvolvimento
através de políticas articuladas com as organizações juvenis e
outras.
Há necessidade de uma política global e integrada de juventude,
por meio da articulação dos programas já existentes nos diversos
níveis de governo e outros que estimulem a informação, a organização,
a participação e a criação. O partido deve incentivar as organizações
de jovens sejam partidárias, estudantis, profissionais, culturais
ou sociais. Recomenda aos seus legisladores e executivos a realização
de políticas públicas articuladas para a juventude. Acompanha
com entusiástico interesse as experiências com conselhos ou secretariados
de jovens em algumas administrações.
A melhoria da qualidade de vida da sociedade passa pela efetiva
promoção dos direitos da juventude e pela criação de condições
de participação dos jovens e de suas organizações. A juventude
tem um papel fundamental na construção de uma cultura de participação
e solidariedade para criar novos paradigmas para o desenvolvimento.
V. A NOVA ETAPA
DO PSDB
Face aos desafios do momento, o
PSDB ingressa em uma nova etapa de sua vida.
A social-democracia é hoje uma corrente política enraizada na
sociedade brasileira, um ideário socialmente legitimado, uma organização
com militância e quadros parlamentares preparados e respeitados.
É não só um partido de governo, mas sobretudo uma agremiação dotada
de capacidade governativa, completamente empenhada numa das mais
profundas mudanças sociais e políticas realizadas no país.
Esse é o nosso legado e é com ele que nos apresentamos no momento
em que nos indagam sobre o que somos e a respeito do que a social-democracia
poderá vir a ser no futuro.
Com esse ideário, erguemos bem alta a bandeira de nossos valores,
daqueles princípios que motivaram a fundação do PSDB. Temos consciência
de que o crescimento impetuoso de nossas fileiras e a nossa participação
nas estruturas do Poder são acompanhadas pelo risco de sermos
contaminados por mazelas existentes na vida política. Daí entendermos
a necessidade de preservar, como a menina de nossos olhos, a pureza
e a integridade de nossos valores, pois é vital a fixação indelével
de nossa identidade política. Em sendo assim, não permanecerá
no PSDB qualquer pessoa que atente contra os interesses da imensa
maioria das brasileiras e brasileiros. Portanto, não seremos omissos
e nem complacentes com qualquer filiado ao PSDB que viole a ética
partidária.
Tudo faremos pelo fortalecimento e o crescimento do PSDB. Mas,
não desejamos ser um partido que domine de forma avassaladora,
a ferro e fogo, o Poder. Temos a visão do significado histórico
da coesão nacional, da aliança com todas as forças e personalidades
em função de o Brasil progredir, de evoluir para uma sociedade
mais justa. Sabemos que os problemas brasileiros não serão resolvidos
só por uma agremiação política, por mais força que ela tenha no
cenário nacional. Somos afeitos ao diálogo com todas correntes
políticas, sem exceção e sem preconceitos, porque consideramos
imprescindível a incansável busca de soluções que correspondam
aos anseios e às exigências da sociedade.
É claro que nosso esforço está dedicado ao amplo sucesso do atual
governo da República também porque dele depende estreitamente
o fortalecimento do PSDB. Mas, a complexa realidade brasileira
tornou impositiva a ação conjunta dos que governam o país, dos
três ramos do Poder, dos governos estaduais e das prefeituras,
das organizações da sociedade civil, não importando a filiação
partidária dos que nelas e neles ocupam posições. Pois as regras
do jogo democrático são invioláveis, sendo um princípio básico
o respeito à opinião dos eleitores, expressa em mandatos outorgados
nos pleitos.
Hoje, um elemento essencial da construção do PSDB é o seu engajamento
na batalha ideológica que se trava no Brasil. Em outras palavras,
avançaremos ou seremos derrotados se vencermos ou perdemos a luta
no campo das idéias. Na verdade, temos atuado debilmente nessa
frente de luta, pois não acompanhamos ativamente o entrechoque
de opiniões que ocorre no Brasil, controvérsias que em grande
medida sucedem em conseqüência das transformações substanciais
na vida nacional. Mudanças em que temos tido uma grande responsabilidade,
em razão da política liderada por Fernando Henrique Cardoso.
Portanto, é chegada a hora e a vez de nos aparelharmos melhor,
como partido, para a batalha ideológica. Esse empenho não pode
ficar restrito às fases que antecedem as eleições. Ele deve ser
permanente porque uma das características de nosso tempo é o papel
que a opinião pública exerce na evolução dos fatos políticos.
O que obriga qualquer partido a realizar um trabalho diuturno
em favor de suas teses. Nesse mister, cumpri-nos dar maior atenção
às atividades da Fundação Teotônio Vilela, pelo potencial que
ela oferece como um núcleo dedicado ao estudo e ao debate dos
problemas candentes e como instrumento de propagação de nossas
teses.
De outro lado, precisamos ter uma presença mais visível, como
partido, no quadro internacional, de modo a estabelecermos um
relacionamento direto com partidos e correntes políticas de outros
países, principalmente com aqueles que assumem posições identificadas
ou aproximadas da política do PSDB. Contatos para um melhor conhecimento
de suas experiências, para um intercâmbio de opiniões e com o
objetivo de firmarmos um conduta que contribua para a luta comum
face a problemas que afetam toda a Humanidade.
No limiar do século 21, a ambição do partido é a mesma que apaixonou
os abolicionistas do final do século 19, os desenvolvimentistas
dos anos 50 e os democratas dos anos 70 e 80: desfraldar, sem
hesitações, as bandeiras da luta pela realização da democracia
e pela definitiva erradicação da miséria e da desigualdade social
no Brasil.
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